VERTIGEM

MURILO MENDES


Venho do ar, da multiplicação de sombras,
cheiros se cruzando.
A noite se espreguiça elástica, em todos os pontos da terra
movem-se desejos,
uma outra vida transparece no azul, danças.
Coros de meninas de quinze anos em igrejas do interior,
namorados pressentindo o aviso dos sentidos,
um morto cruzou o espaço, treme o céu, a lua
penteia os cabelos, todas as coisas se comunicam,
as crianças chegam mais perto do seio materno,
os chefes de família vêem no espaço a projeção da vida deles.
Ritmos lânguidos, cadeiras de balanço, tudo no seu lugar.
Eu intervenho, chego da viagem nas almas,
tonto, vários planos me invocam, estou em relação
com as estátuas andando na terra,
mulheres que voltam para trás sentindo o meu olhar,
um barulho vem do fundo da terra, estrelas caindo,
vidas rodando, os sete arcanjos tardam, estou vendo
minha vida pra trás e eu balançando na asa do vento.
Me socorram, me levem pra outro mundo
onde as mulheres sejam tão bonitas como aqui
e o desânimo ainda maior.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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