GÊNESE PESSOAL

MURILO MENDES


1

Então eu nasci na onda aeréa.
Na idade mais recente do ar,
Me desliguei das camadas de ar,
Cai na escrivaninha do meu tio.

Uma serpente de pano levantou-se,
Apertei uma mola no seu ventre,
Saiu uma cantiga assim:

"Aprenda a engatinhar,
Meu menino. Qual o quê,
Aprenda a andar muito bem.
Que tua tia te dará
Aquela maçã tão bonita.
Se aprendem a andar
Saberás o que se passa
Aqui neste mundo de Deus."

A cantiga me embalou.
Acordei depois
Nos braços do meu anjo da guarda
Que esteve preso muitos anos,
Foi solto por uma rainha chamada Isabel.

Só mais tarde
Ouvi meu tio gritar no corredor:
Abram a luz.

2

Quando me debrucei na janela
O dilúvio já tinha passado,
Foi recolhido nos tanques, nos moringues.
Alguns gatos e cachorros
Davam um concerto pra saudar o arco-íris.
Minha tia enfiou a cabeça dentro da arca,
Depois vestiu de seda,
Calçou luvas de camurça
Pra ir ver a aliança de Deus.

Uma pomba pousou a hélice no telhado,
A criada abriu a porta:
Era Lili de Oliveira que entrava
Toda fogosa
Atraída pelo cheiro de maçã.

Naveguei muito tempo
Nas ondas do seio dela,
A chaminé da fábrica alemã apitou,
Estávamos chegando.

Azulei para a casa do vizinho,
Lili me levando pela mão,
Com os olhos fora das órbitas,
Vestida com a própria pele.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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