CANÇÃO DE ALTA NOITE

CECÍLIA MEIRELES



Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.


Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.


Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.


Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.


Andar... Pender o seu passo
na noite, também perdida.


Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.


Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.


Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.

Cecília Meireles
(7 de novembro de 1901, Tijuca - 9 de novembro de 1964, Rio de Janeiro)

Cecília Benevides de Carvalho Meireles foi uma poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira. É considerada uma das vozes líricas mais importantes das literaturas de língua portuguesa. 

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