NAUFRÁGIO ANTIGO

CECÍLIA MEIRELES



Inglesinha de olhos tênues,
corpo e vestido desfeitos
em águas solenes;


inglesinha do veleiro,
com tranças de metro e meio
embaraçando os peixes.
Medusas róseas nos dedos,
algas pela cabeça,
azuis e verdes.


Desceu muitos degraus de seda
e atravessou muitas paredes
de vidro fresco.


Embalada em seus cabelos,
navegava frios reinos
de personagens lentos:


por paisagens de anêmonas,
caudas negras,
nadadeiras trêmulas.


Mirava a lua seus dentes,
seus olhos - de oceano cheios,
seus lábios - hirtos de sede.


Muito tempo, muito tempo...
Medusas róseas nos dedos,
pelo peito, estrelas,
brancas e vermelhas.


Em praias de triste areia,
o vento, sem o veleiro,
chorava de pena.


Inglesinha de olhos tênues,
ao longe suspensa
em líquidas teias!


Vestidos sem consistência:
medusas róseas no ventre,
algas pelos joelhos,
azuis e verdes.


Landes ermas
vão sofrendo e morrendo
porque a perderam.


Pelas águas transparentes,
suspiros que foram vê-la
ficaram prisioneiros.


E as lágrimas que correram
extraviaram-se, na rede
da espuma crespa.


Inglesinha de olhos tênues
volteia, volteia
no mar, em silêncio.


Moluscos fosforescentes
cobiçam os arabescos
de suas orelhas.


Peixes de olhos densos
bebem suas veias
azuis e violeta.


Embalada em seus cabelos,
noutros mundos entra,
sempre mais imensos.


Por entre anêmonas,
nadadeiras trêmulas,
súbitos espelhos.


A cor dos planetas
pinta seu rosto de cera
e banha seus pensamentos.


(Porque ela ainda pensa:
algas pelo ventre,
azuis e verdes,
medusas pelos artelhos.


E ainda sente.
Sente e pensa e vai serena,
embalada em seus cabelos.)


Inglesinha de olhos tênues,
com tranças de metro e meio,
cor de lua nascente.


Branca ampulheta
foi vertendo, vertendo
séculos inteiros.


Desmanchou-lhe o seio,
desfolhou-lhe os dedos
e as madeixas,


medusas, estrelas,
róseas e vermelhas,
e algas verdes,


e a voz do vento
que na areia
sofrera.


E a existência
e a queixa


de quem teve
pena,
antigamente.

Cecília Meireles
(7 de novembro de 1901, Tijuca - 9 de novembro de 1964, Rio de Janeiro)
Cecília Benevides de Carvalho Meireles foi uma poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira. É considerada uma das vozes líricas mais importantes das literaturas de língua portuguesa. 

Comentários