O IRREPARÁVEL

CHARLES BAUDELAIRE



Como abafar este Remorso interminável,
Que vive, se enrosca e se agita,
E se nutre de nós como um ventre insaciável
Qual do carvalho o parasita?
Como abafar este Remorso inexorável?

Em que filtro, em que vinho, em que amarga tisana
Afogar tal praga inimiga,
Gulosa e predatória como uma mundana,
Paciente como uma formiga?
Em que filtro?  em que vinho?  em que amarga tisana?

Ah, dize, ó feiticeira! dize, se és capaz,
A esta alma que o tormento assola,
Como a de quem, em meio aos que agonizam, jaz
E o casco do cavalo esfola,
Ó bela feiticeira! ah, dize, se és capaz,

Ao moribundo a quem o lobo já fareja
E a gula do corvo amortalha,
A este soldado que, batido ainda peleja
Por uma tumba e uma medalha;
O moribundo a quem o lobo já fareja!

Como clarear um céu ao sol indiferente,
Rasgar-lhe as trevas em cortejo,
Mais densas do que o breu, sem aurora e sem poente,
Sem astro ou fúnebre lampejo?
Como clarear um céu ao sol indiferente?

A Esperança que luz nos vidros da Estalagem
Desfez-se em meio ao torvelinho!
Sem raios nem luar, onde achar-se hospedagem
Aos mártires de um mau caminho?
Satã tudo extinguiu nos vidros da Estalagem!

Amável feiticeira, adoras os danados?
Conheces o que nunca é salvo?
Conheces do Remorso os dardos aguçados,
Que o coração nos fazem de alvo?
Amável feiticeira, adoras os danados?

O Irreparável rói com a presa maldita
Nossa alma, indigno monumento,
E muita vez ataca, assim como a termita,
O prédio por seu fundamento.
O Irreparável rói com a presa maldita!

 Por vezes vi, ao fundo de um teatro banal
Que inflamara a orquestra sonora,
Uma fada acender no horizonte infernal
Uma miraculosa aurora;
Por vezes vi, ao fundo de um teatro banal,

Um Ser feito somente de outro, gaze e luz
Que ao enorme Satã vencera;
Porém meu coração, que êxtase algum seduz,
É como um teatro onde se espera,
Em vão e para sempre, o Ser de asas de luz!

Charles Baudelaire
(1821-1867)
Charles-Pierre Baudelaire foi um poeta boêmio ou dandi ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Adorei o blog, super interessante, ótimo mesmo. vou visitar outras vezes. Mas você me deixa fazer uma crítica construtiva? As cores estão muito chocantes. As letras rochas com o fundo preto, e o fato do branco está ao lado do preto,em uma imagem o contraste ficaria legal, mas para se ler... isto tudo deixa o olhos muito cansados.


    Helton Ojuara
    www.salvadornuaecrua.blogspot.com

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