MULHERES MALDITAS

CHARLES BAUDELAIRE



Como um rebanho absorto e na areia deitadas,
Elas volvem o olhar para o espelho das águas;
Os pés em mudo afago e as mãos entrelaçadas,
Bebem o fel do calafrio e o mel das mágoas.

Umas, o coração abrindo em confidências
Nos bosques onde se ouve um côrrego em segredo,
Vão soletrando o amor em cândidas cadências
E o pólen raspam aos rebentos do arvoredo;

Outras, tais como irmãs, andam lentas e cavas
Por entre as rochas apinhadas de ilusões,
Onde viu Santo Antônio aflorar como lavas
Os rubros nus de suas tentações;

Outras há que, ao calor da líquida resina,
No côncavo sem voz de um velho antro pagão
Pedem por ti em meio à febre que alucina,
Ó Baco, ao pé de quem dorme toda a aflição!

E outras, que adoram pôr ao colo escapulários
E que, escondendo sob as vestes um cilicio,
Juntam à noite, pelos bosques solitários,
A espuma do prazer ao gume do suplício.

Ó monstros, ó vestais, ó mártires sombrias,
Espíritos nos quais o real sucumbe aos mitos,
Vós que buscais o além, na prece e nas orgias,
Ora cheias de pranto, ora cheias de gritos,

Vós que minha alma perseguiu em vosso inferno,
Pobres irmãs, eu vos renego e vos aceito,
Por vossa triste dor, vosso desejo eterno,
Pelas urnas de amor que inundam vosso peito!

Charles Baudelaire
(1821-1867)
Charles-Pierre Baudelaire foi um poeta boêmio ou dandi ou flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

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