A ANUNCIAÇÃO

MURILO MENDES


O anjo pousa de leve
No quarto onde a moça pura
Remenda a roupa dos pobres.
Nasceu uma claridade
Naquele quarto modesto:
A máquina de costurar
Costura raios de luz;
Não se sabe mais se o anjo
É ele mesmo, ou Maria.

A tarde levanta o corpo,
Suspende a respiração,
E o espírito murmurou:
- O Senhor manda saudar
A mais pura das mulheres,
Formosa entre as criaturas,
Mais santa do que mulher,
Deus te escolheu pra nascer
No teu seio o Salvador.
Serás recebida uum dia
Na frente dos serafins,
Também serás transpassada
Com espada de sete dores.
A noite já está nascendo,
Adeus, minha amiga, adeus. -

Maria não se perturba,
Inclina o corpo sereno:
- Espere um pouco, meu anjo,
Não esqueça deste recado.
Eu sou a ancila de Deus,
Tudo o que Ele ordenar
Me esforçarei por cumprir.

Meu corpo nas mãos de Deus,
Minha alma nas mãos de Deus
São menos do que a costura
Aqui nestas pobres mãos. -

O anjo levanta os braços,
Vai a moça estremeceu:
A sombra dele sumindo
Desenha uma cruz no chão.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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