O CONCERTO

MURILO MENDES


Então o santo chegou
Nos arredores de Assis,
Tira uma gaita do bolso,
Leva na boca ferida,
As flores vêm caminhando
Com os besouros nas corolas
Fazendo um grande zunzum;
Os rouxinóis escutaram
O convite pro concerto,
Chegaram já na estação,
Trazendo flautas a bordo;
Das profundezas do bosque
As feras que estão mamando
Vêm penduradas nas mães,
Na frente delas o lobo,
Fazem barulho de bombos,
De baixos, de bombardinos;
Moças e crianças passeando
Na avenida principal
Chegam bem perto do santo,
Com Santa Clara na frente,
Dilacerando violões;
Os olhos da santa mexem
Com tanta graça e expressão,
Que o poder do santo aumenta,
Ele sopra com mais jeito
Na sua gaita encantada,
Trabalhadores do campo
Carregam com as baterias,
Também adotam o concerto;
Vai um leproso na frente,
O santo tem um pena,
A força dele cresceu,
O sopro tocou na lepra,
Então a lepra sumiu;
A muldidão vai andando
Com o santo sempre na frente
E a gaita na frente dele;
De repente um serafim
Com o corpo crucificado
Desprega os braços da cruz,
Toca com os braços no tronco,
Sai um som de violoncelo
Que vai arrastando a turma.
O santo olhou pra mão dele,
A mão do santo já sangra
Bem assim como seus pés,
Mas o santo continua,
Aperta a gaita com força,
Olha mais pro serafim,
Vem o som do violoncelo
Mais ondulante, mais doce,
A multidão vai subindo,
Subiram, subiram mais,
Uma estrela vai passando,
Se incorporou ao concerto,
O santo aperta na gaita,
Os ralos da estrela viram
Em clarins e saxofones,
O santo sopra com força,
O sopro da gaita abriu
Então as portas do céu.
O serafim vai na frente,
Os anjos sopram vibrantes
Nas trombetas, nos pistões,
Uma pomba triangular
Solta um cântico tão puro
Que os rouxinóis baixam a voz;
O Pai então manda um grito
Tão na distância, tão longe,
Um grito com raio X,
Que o corpo do mundo treme,
Até os ossos transparecem,
Que todos ficam de pé,
Até os mortos levantam;
Os que estão para nascer
Já nasceram, se levantam,
Os inimigos se abraçam,
Os maus mudaram de cor,
Crianças mamando no seio
De repente estão de pé;
Parou a roda da terra,
Todos escutam o concerto,
Mas no meio do concerto
Se ouvia a gaita apitar
Chamando os mortos - bom dia! -
Chamando a lua - minha irmã! -,
Que crescem, viraram monges,
Foram à procura do santo,
Mas quando chegam no céu
O santo não é mais homem,
Mudou-se num serafim.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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