A REVELADORA

MURILO MENDES


Eu nunca vi tua mãe.
Como será tua mãe?
Nem ao menos vi seu retrato.
Para te conhecer melhor
Preciso aprender tua mãe.

A mãe dela finalmente
Apareceu hoje de tarde na varanda.
Tem os cabelos ruivos que nem a filha,
Os quadris largos que nem a filha,
O mesmo jeito de andar.

Olhei para Maria
Reconstitui sua mãe
No tempo em que a conheci.
Olhei para a mãe dela,
Pude avaliar direito
O que será Maria no futuro.

Louvada seja a mãe da minha namorada
Que levou nove meses para fazer
Todo aquele mundo de ternura
E não descansou até agora
Nem ao menos um dia;
Que a tirou do seu ventre
Enquanto seu marido não estava dormindo.
Que lhe emprestou
Seus cabelos, olhos e quadris;
Que a deixou no jardim de noite
A fim de eu aprender com ela
A ciência do amor e do mal.

Murilo Mendes
(13 de maio de 1901, Juiz de Fora, Minas Gerais - 13 de agosto de 1975, Lisboa, Portugal)
Murilo Monteiro Mendes foi um poeta e prosador brasileiro, expoente do surrealismo brasileiro.

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