MEU DECASSÍLABO

JORGE DE LIMA


A Natureza que seus filhos gera,
e qual Saturno os próprios filhos mata,
deu-te a noção a pouco e pouco exata,
desse final que trágico te espera!

Ser feliz por completo é uma quimera...
Ao lado d'alma boa anda a insensata
como às vezes no Bom surge uma inata
e atávica tendência de ser fera...

Por mais indefectível que pareças,
Homem, serás duma outra vida a imagem,
pois justo é que tu nasças e pereças,

herdeiro dos pavores do Selvagem
e dos vícios, das dores, das desgraças
originárias de milhões de raças...

Jorge de Lima
(23 de abril de 1895, União dos Palmares, Alagoas - 15 de novembro de 1953, Rio de Janeiro)
Jorge Mateus de Lima foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.

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