COTOVIA

MANUEL BANDEIRA


Alô cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que tantas saudades me deixaste?

- Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento.
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe...
Voltei, te trouxe a alegria.

- Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

- Líbia ardende, Cítia fria,
Europa, França, Bahia...
- E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

- Voei ao Recife, no Cais
Pousei da Rua da Aurora.

- Aurora da minha vida,
- Que os anos não trazem mais!

- Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes,
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
- Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.

Manuel Bandeira
(19 de abril de 1886, Recife, Pernambuco - 13 de outubro de 1968, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro)
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.

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