PROUST (1871-1922)

Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos se acham cativas nalgum ser inferior, num animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos sucede passar por perto da árvore, entrar na posse do objeto que lhes serve de prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e logo que as reconhecemos está quebrado o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco. / É assim como o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora do seu domínio e do seu alcance, nalgum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.

No Caminho de Swann

Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust foi um escritor francês, mais conhecido pela sua obra Em busca do Tempo Perdido, que foi publicada em sete partes entre 1913 e 1927.

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