RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Porém no mais das vezes, o tempo tão especial de sua vida, de onde estava saindo, percebia Swann que já não o aguentava quando fazia esforços, senão para ali permanecer, ao menos para dele ter uma imagem clara enquanto ainda fosse possível; gostaria de ver como uma paisagem que ia desaparecer, aquele amor que acabava de deixá-lo; mas é tão difícil ser duplo e dar-se o espetáculo verídico de um sentimento que se deixou de ter, que em breve, obscurecendo-se o seu cérebro, ele não via mais nada, renunciava à contemplação, retirava seu pincenê e enxugava as lentes; dizia consigo que era melhor descansar um pouco, que dali a pouco ainda era tempo, e punha-se a um canto, incurioso, no entorpecimento do viajante cheio de sono que abaixa o chapéu sobre os olhos para dormir no vagão que sente o está levando, cada vez mais depressa, para longe da terra onde viveu tanto tempo e que prometera a si mesmo não deixar desaparecer sem lhe dar um último adeus.

PROUST, 2004, p.295
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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