RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Por mais que soubesse agora - mesmo que, com o passar do tempo, tivesse esquecido um pouco, pudesse ser perdoado -, no momento em que repetia consigo tais palavras, o sofrimento antigo se refazia tal como era antes que Odette tivesse falado: ignorante, confiante; seu ciúme cruel punha-o novamente, para magoá-lo com a confissão de Odette, na posição de alguém que ainda não sabe, e ao fim de vários meses aquela velha história o perturbava sempre como uma revelação. Admirava-se do terrível poder recriador da memória. Só do enfraquecimento dessa geratriz, cuja fecundidade diminui com o tempo, é que ele podia esperar um apaziguamento da sua tortura. Mas quando parecia esgotado o poder de fazê-lo sofrer, que tinham as palavras pronunciadas por Odette, eis que uma delas, em que o espírito de Swann menos se demorara até então, uma palavra quase nova, vinha substituir as outras, golpeando-o com vigor renovado.

PROUST, 2004, p.288
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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