RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Existem no violino - se, sem ver o instrumento, não podemos ligar o que ouvimos à sua imagem, a qual modifica a sonoridade - acentos que lhe são comuns a certas vozes de contralto, que temos a ilusão de que uma cantora foi acrescentada ao concerto. Erguemos os olhos, vemos somente os estojos, preciosos como caixas chinesas, mas, por instantes, ainda somos enganados pelo chamado ilusório das sereias, às vezes, também, julgamos ouvir um gênio cativo que se debate no fundo da sábia caixa, feiticeira e fremente, como um demônio numa pia de água benta, às vezes, enfim, é no ar que o sentimos, como um ser sobrenatural e puro que passa desenrolando sua mensagem invisível.

PROUST, 2004, p.273
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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