RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Ideia incompleta - e talvez por isso mais profunda - se a considerarmos do ponto de vista de Swann, que certamente se julgaria incompreendido por Odette, como um morfinômano ou um tuberculoso, convencidos que foram detidos, um, por um acontecimento exterior no momento em que ia livrar-se de seu hábito inveterado, o outro, por uma indisposição acidental, no instante em que ia enfim ser reabilitado, se sentem incompreendidos pelo médico, que não atribui a mesma importância que eles a essas pretensas contigências, simples disfarces, segundo ele, de que se reveste o vício ou o estado mórbido para novamente se fazerem sensíveis aos doentes, e que, de fato, não deixaram de pesar incuravelmente sobre eles, enquanto se embalaram em sonhos de cura ou regeneração. E, na verdade, o amor de Swann chegara àquele grau em que o médico e, em certas afecções, o cirurgião mais ousado, perguntam a si mesmos se privar um doente do seu vício ou lhe extirpar seu mal ainda será razoável ou até mesmo possível.

PROUST, 2004, p.244
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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