RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

É claro que descobria motivos válidos para seu ressentimento contra ela; porém, tais motivos não lhe inspirariam tanto ódio se não a amasse muito. Não tinha tido queixas igualmente contra outras mulheres, às quais, não obstante, prestaria serviços hoje de boa vontade, sem qualquer ódio por elas, justo por ter deixado de lhes sentir amor? Se algum dia devesse encontrar-se no mesmo grau de indiferença quanto a Odette, compreenderia que somente o ciúme é que o fizera achar algo de atroz e imperdoável nesse desejo, no fundo tão natural, resultado de um pouco de infantilidade e também de uma certa delicadeza de alma, e de por sua vez, já que a ocasião se apresentava, poder retribuir as gentilezas dos Verdurin, fazer o papel de dona de casa.

Voltava àquele ponto de vista - oposto ao do amor e do ciúme, e no qual se postava, às vezes, por uma espécie de equidade intelectual e para jogar com as diversas probalidades - do qual tentava julgar Odette como se não a tivesse amado, como se, para ele, se tratasse de uma mulher como as outras, como se a vidade de Odette, quando ele já não estava em sua companhia, não fosse diversa, tramada às escondidas dele, urdida contra ele.

PROUST, 2004, p. 241
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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