RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

E o prazer que lhe dava a música e que em breve iria criar nele uma verdadeira necessidade, de fato se parecia, nesses momentos, com o prazer que ele teria de experimentar perfumes, em entrar em contato com um mundo para o qual não somos feitos, que nos parece informe porque nossos olhos não o distinguem, e sem significado porque escapa à nossa inteligência, e que só conseguimos alcançar através de um único sentido. Grande descanso, misterioso renovar para Swann - para ele, cujos olhos, embora delicados amantes da pintura, cujo espírito, apesar de fino observador de costumes, levavam para sempre a marca indelável da aridez de sua vida - o de sentir transformado em uma criatura estranha à humanidade, cega, desprovida de faculdades lógicas, quase um fantástico licorne, uma criatura quimérica, só percebendo o mundo pelo ouvido. E, no entanto, como na pequena frase ele buscava um sentido a que sua inteligência não lograva baixar, que ebriedade estranha o possuía para despojar sua mais interna alma de todos os auxílios da razão e em fazê-la passar sozinha pelo corredor, no filtro obscuro do som! Começava a perceber tudo aquilo que aí havia de doloroso, talvez mesmo de secretamente desassossegado no fundo da doçura dessa frase, mas não podia sofrer por isso. Que importava que ela lhe dissesse que o amor é frágil, o seu era tão forte! Distraía-se com a tristeza que ela espalhava, sentia-a passar acima dele, porém como uma carícia que fazia mais doce e mais profundo o sentimento que tinha de sua felicidade. Fazia com que a tocasse de novo, dez, vinte vezes, exigindo ao mesmo tempo que ela não parasse de beijá-lo. Cada beijo chama outro beijo. Ah, naqueles primeiros tempos em que a gente ama, o beijos nascem tão naturalmente! Chegam tão apertados uns contra os outros; e a gente teria tanta dificuldade em contar os beijos trocados numa hora quanto as flores de um campo no mês de maio.

PROUST, 2004, p.193
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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