RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Swann passava a outra mão pelo rosto de Odette; ela o encarou fixamente, com o ar lânguido e grave das mulheres do mestre florentino com as quais ele a achava parecida; à flor das pálpebras, seus olhos brilhantes, grandes e finos, como as daquelas, pareciam prontos a se soltar, como duas lágrimas. Ela inclinava o pescoço, como se vê fazerem todas elas, tanto nas cenas pagãs como nos quadros religiosos. E, numa atitude certamente lhe era habitual, que sabia ser apropriada para aqueles momentos, e que cuidava em não se esquecer de assumir, parecia necessitar de todas as forças para reter seu rosto, como se uma força invisível a atraísse para Swann. E foi este quem, antes que ela o deixasse cair, como que sem querer, sobre os lábios dele, reteve-o por um instante, a uma certa distância, entre as mãos. Gostaria Swann de deixar ao pensamento o tempo de acorrer, de reconhecer o sonho que tão longamente acalentara e de assistir à sua realização, como uma parenta que é chamada para compartilhar do êxito de uma criança a quem muito amou. Talvez também, Swann quisesse olhar o rosto de Odette ainda não possuída, nem sequer beijada por ele, e que via pela última vez, esse olhar com o qual, num dia de despedida, gostaríamos de levar uma paisagem que deixaremos para nunca mais.

PROUST, 2004, p.190
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
EM busca do tempo perdido

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