RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Ela achava tão imprevisto o encontro que teve um sobressalto. Quanto a Swann, andara correndo por Paris não porque julgasse possível um encontro e sim porque era-lhe muito cruel renunciar a ele. Porém aquela alegria, que sua razão não deixara estimar irrealizável nessa noite, parecia-lhe agora tanto mais real; pois, não tendo colaborado com a previsão das verossimilhanças, ela lhe permanecia como que exterior, não tinha ele necessidade de extrair do espírito para lhe fornecer - dela mesma é que emanava, ela mesma é que projetava para ele - aquela verdade que irradiava a ponto de dissipar, como um sonho, o isolamento que havia temido, e sobre o qual apoiava, repousava, sem pensar, o seu devaneio feliz. Da mesma forma um viajante, chegado ao Mediterrâneo por um belo tempo, não tendo certeza dos lugares que acaba de deixar, consente, em vez de olhar, que a vista seja ofuscada pelos raios que para ele emite o azul luminoso e resistente das águas.

PROUST, 2004, p.189
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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