RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Olhava-a; um fragmento do afresco aparecia no seu rosto e no seu corpo, e desde então procurou captá-lo sempre que estivesse com Odette, ou apenas quando nela pensava; e embora com certeza se limitasse à obra-prima florentina porque nela a reencontrava, contudo tal semelhança também conferia a Odette uma beleza, tornando-a mais preciosa. Swann censurou a si mesmo por ter desconhecido o valor de uma pessoa que teria parecido encantadora ao grande Sandro e felicitou-se pelo fato de que o prazer que sentia ao ver Odette encontrava uma justificativa em sua própria cultura estética. Disse consigo que, associando a ideia de Odette a seus sohos de felicidade, não estava se resignando a algo tão imperfeito como acreditara até então, pois ela contentava-lhe os mais requintados gostos artísticos. Esquecia-se de que, nem por isso, era Odette uma mulher segundo os seus desejos, já que seu desejo se orientara sempre exatamente num sentido oposto aos seus gostos estéticos. O termo "obra florentina" prestou grande serviço a Swann. Permitiu-lhe, como um título, introduzir a imagem de Odette em um mundo de sonhos ao qual ela não tivera acesso até então e onde se banhou em nobreza. E ao passo que a visão puramente carnal que tivesse dessa mulher, renovando permanentemente suas dúvidas sobre a qualidade de seu rosto, de seu corpo, de toda a sua beleza, enfraquecia seu amor, tais dúvidas foram eliminadas e esse amor assegurado quando teve por base os dados de uma estética precisa; sem considerar que o beijo e a posse, que pareciam naturais e medíocres se obtidos através de uma carnação murcha, vinham coroar a adoração de uma peça de museu, parecendo ser sobrenaturais e deliciosos.

E quando se sentia tentado a lastimar que durante meses não fazia outra coisa senão ver Odette, pensava ser razoável dispender muito do seu tempo com uma obra-prima inestimável, modada agora em uma matéria diversa e especialmente saborosa, em um exemplar raríssimo que ele contemplava ora com a humildade, a espiritualidade e o desinteresse de um artista, ora com o orgulho, o egoísmo e a sensualidade de um colecionador.

PROUST, 2004, pp.183-184
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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