RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Às vezes, apesar de tudo, permitia-se emitir uma opinião sobre uma obra, sobre uma forma de compreender a vida, mas então dava a suas palavras um tom irônico, como se não aceitasse inteiramente o que dizia. Ora, como certos valetudinários a quem, de súbito, uma região aonde chegam, um regime diverso, às vezes uma evolução orgânica, espontânea e misteriosa, parecem trazer uma regressão do mal de que sofrem, e começam a admitir a possibilidade inesperada de principiar, ainda que tarde, uma vida completamente diferente, Swann encontrava em si, na lembrança da frase que ouvira, em certas sonatas que mandava tocar para ver se a descobria, a presença de uma dessas realidades invisíveis em que deixara de acreditar e às quais, como se a música tivesse tido, sobre a secura moral de que ele sofria, uma espécie de influência eletiva, sentia de novo o desejo e quase a força de consagrar a vida.

PROUST, 2004, pp.173-174
Um amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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