RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Mas na idade já um pouco desiludida de que se aproximava Swann, na qual a gente sabe se contentar em estar apaixonado pelo prazer de sê-lo, sem exigir demais em troca, essa união de corações, se já não é como na primeira mocidade o fim para o qual tende necessariamente o amor, lhe fica ligada, em composição, por uma associação de ideias tão forte que pode ser sua causa, se se apresenta antes dele. Antigamente, sonhava-se em possuir o coração de uma mulher da qual estavávamos enamorados; mais tarde, sentir que possuíamos o coração de uma mulher podia bastar para que nos apaixonássemos por ela. Assim, como se busca no amor principalmente um prazer subjetivo, na idade em que poderia parecer que o gosto pela beleza de uma mulher assumisse a maior parte, o amor - o amor mais físico - pode nascer sem que tenha ocorrido, em seus fundamentos, um desejo prévio. Nessa época da vida, a gente já foi diversas vezes atingido pelo amor; e ele já não evolui sozinho conforme suas próprias leis desconhecidas e fatais, ante o nosso coração espantado e inerme. Nós vamos em sua ajuda, iludimo-lo com a memória, com a sugestão. Ao reconhecer um de seus sintomas, relembra-mos e fazemos renascer os outros. Visto que possuímos sua canção, agravada inteirinha dentro de nós, não precisamos mais que uma mulher que nos diga o começo - repleto da admiração que inspira a beleza - para encontrar a continuação. E se ela começa pelo meio - no ponto onde os corações se aproximam, onde a gente fala de só existir um para o outro - já estamos bem acostumados a essa música para que logo alcancemos a nossa partenaire no ponto em que nos espera.

PROUST, 2004, p.163
Um Amor de Swann
NO CAMINHO DE SWANN
Em busca do tempo perdido

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