RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)

Não era como tantas pessoas que, por preguiça ou sentimento resignado da obrigação que lhes impõe a grandeza social de ficarem amarrados a uma certa margem, se abstêm dos prazeres que a realidade lhes apresenta fora da posição mundana em que vivem aquartelados até a morte, contentando-se em acabar por chamar prazeres, à falta de coisa melhor, uma vez que se habituaram a tal, os divertimentos medíocres ou os tédios suportáveis que ela contém. Quanto a Swann, não procurava achar bonitas as mulheres com quem passava o tempo, mas passar o tempo com as mulheres que primeiro achava bonitas. E muitas vezes tratava-se de mulheres de beleza bem vulgar, pois as qualidades físicas que ele buscava sem se dar conta disso estavam em completo desacordo com as que lhe tornavam admiráveis as mulheres esculpidas ou pintadas pelos mestres que preferia. A profundeza e a melancolia da expressão esfriavam-lhe os sentidos que, ao contrário, uma carne saudável, opulenta e rosada bastava para despertar.

PROUST, 2004, p.160
Um Amor de Swann
NO CAMINHO DE SWAN
(Em busca do tempo perdido)

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