RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)
Era assim que eu ficava muitas vezes até de manhã a pensar no tempo de Combray, nas minhas tristes noites sem sono, e também em tantos dias, cuja imagem me fora mais recentemente restituída pelo sabor — o que em Combray se chamaria “perfume” — de uma xícara de chá e pela associação de lembranças estabelecidas entre recordações minhas e certos fatos que, muitos anos depois de ter deixado aquela cidadezinha, fiquei sabendo acerca de um amor que Swann vivera antes do meu nascimento, com essa precisão de detalhes mais fácil de conseguir, às vezes, quanto à vida das pessoas mortas há séculos do que no caso de nossos melhores amigos, e que parece impossível, como parecia impossível conversar de uma cidade a outra — enquanto ignoramos a maneira como foi resolvida essa impossibilidade. Todas essas lembranças reunidas umas às outras não formavam mais que uma massa, mas nem por isso eu deixava de perceber entre elas — entre as mais velhas e as mais novas, surgidas de um perfume, e depois as que eram somente lembranças de outra pessoa, que as passava a mim — senão fissuras, verdadeiras fendas, pelo menos essas nervuras, essas misturas de cores que, em certas rochas e certos mármores, revelam diferenças de origem, de idade e de “formação”.



Certamente, quando se aproximava o dia, já fazia muito se dissolvera a breve incerteza do meu acordar. Eu sabia em que quarto me encontrava de fato, reconstruíra-o a meu redor na obscuridade e — ora me orientando apenas pela memória, ora auxiliando-me, como indicação, com uma luzinha fraca que percebera, à qual aplicava as cortinas da janela — reconstruíra-o por inteiro, mobiliara-o, como um arquiteto e um tapaceiro que conservam o buraco primitivo para as janelas e as portas, recolocava os vidros e repusera a cômoda em seu lugar de costume. Porém, mal o dia — e não mais o reflexo de uma última brasa sobre um varão de cobre que eu tomara por ele — traçava na escuridão, como que a giz, o primeiro raio branco e retificador, a janela com suas cortinas abandonava o quadrado da porta, onde eu a situava por engano, enquanto que, para lhe dar lugar, a escrivaninha, que minha memória instalara desastradamente ali, fugia a toda pressa, levando a lareira de roldão e afastando a parede intermediária do corredor; um patizinho reinava onde, ainda há pouco, se localizava o quarto da toalete, e a residência que eu edificara nas trevas ia reunir-se às casas entrevistas no turbilhão do despertar, posta em fuga por aquele pálido signo que o dedo erguido do dia havia traçado acima das cortinas.

PROUST, 2004, pp., 155-156


Combray
NO CAMINHO DE SWANN
(Em busca do tempo perdido)

Comentários