RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)
Portanto, o lado de Méséglise e o lado de Guermantes permanecem, para mim, ligados a várias das pequenas ocorrências dessa vida que, de todas as diversas vidas que vivemos paralelamente, é a mais cheia de peripécias, quero dizer, a vida intelectual. Sem dúvida, ela progride insensivelmente dentro de nós e as verdades que mudaram seu sentido e seu aspecto, que nos abriram caminhos novos, há muito que vínhamos preparando a sua descoberta, porém sem sabê-lo; e elas, para nós, só datam do dia, do minuto em que nos tornaram visíveis. As flores que então brincaram na grama, a água que corria ao sol, toda a paisagem que rodeava a sua aparição continua a acompanhar sua lembrança com seu rosto inconsciente ou distraído; e com certeza, quando eram contempladas longamente por esse humilde passante, por essa criança que sonhava — como o é um reino memorialista perdido na multidão —, esse recanto da natureza, esse pedaço de jardim não poderiam pensar que, graças a ele, seriam chamados a sobreviver em suas particularidades mais efêmeras; e no entanto o aroma do espinheiro-alvar que se evola ao longo da sebe onde as eglantinas em breve o substituirão, o rumor de um passo sem eco sobre o cascalho de uma alameda, uma bolha formada contra uma planta aquática pela água do rio e que logo estouro, minha exaltação os transportou e conseguiu fazê-los atravessar tantos anos sucessivos, enquanto que em torno os caminhos se apagaram e estão mortos aqueles que os trilharam e morta a lembrança dos que o pisaram. Por vezes, esse trecho de paisagem assim transportado até o dia de hoje ganha relevo, tão isolado de tudo, que flutua indeciso no meu pensamento como uma Delos florida, sem que eu possa dizer de que país ou de que tempo eles provém: talvez, simplesmente, de que sonho. Mas é sobretudo como se pensasse em jazidas profundas do meu terreno mental, como nos solos resistentes em que ainda me apóio, que devo pensar no lado de Méseglise e no lado de Guermantes.

PROUST, 2004, pp.153-154


Combray
NO CAMINHO DE SWANN 
(Em busca do tempo perdido)

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