RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)
Certamente, não eram impressões desse tipo que me poderiam dar a esperança, já perdida, de que um dia eu fosse escritor e poeta, pois elas estavam sempre ligadas a um objeto particular desprovido de valor intelectual e não se relacionavam a nenhuma verdade abstrata. Mas pelo menos me conferiam um prazer desarrazoado, a ilusão de uma espécie de fecundidade, e por aí me distraíam do tédio, do sentimento de impotência que eu experimentava cada vez que havia procurado um assunto filosófico para uma grande obra literária. Mas era tão árduo o dever de consciência que impunham essas impressões de forma, de perfume ou de cor — de buscar perceber o que se escondia atrás deles, que não tardei a procurar em mim as escusas que me permitissem subtrair-me a tais esforços e me livrassem de tamanha fadiga.

PROUST, 2004, p.150


Combray
NO CAMINHO DE SWANN 
(Em busca do tempo perdido)

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