RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)
Às vezes, à beira d’água cercada de árvores, encontrávamos uma casa chamada de recreio, isolada, perdida, que nada via do mundo senão o rio que lhe banhava os pés. Uma mulher moça, cuja fisionomia pensativa e véus elegantes não eram do lugar e que sem dúvida viera, conforme a expressão popular, “enterrar-se” ali, desfruta do amargo prazer de sentir que seu nome, sobretudo o nome daquele cujo coração não pudera conservar, era desconhecido na região, enquadrava-se na janela que não a deixava olhar mais além da barca amarrada perto do portão. Erguia distraidamente os olhos ao ouvir atrás das árvores da margem a voz dos passantes que, antes mesmo de ver seus rostos, podia estar certa de que nunca tinham conhecido, e nem o conheceriam, o infiel, que nada em seu passado guardava-lhe a marca e nada em seu futuro teria oportunidade de recebê-la. Sentia-se que, em sua renúncia, abandonava por vontade própria os lugares onde poderia ao menos avistar o amado, por aqueles que nunca o tinham visto. E eu a contemplava, voltando de um passeio por um caminho pelo qual ela sabia que ele não haveria de passar descalçando de suas mãos resignadas as longas luvas de uma graça inútil.

PROUST, 2004, p.144


Combray
NO CAMINHO DE SWANN 
(Em busca do tempo perdido)

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