RECORTES LITERÁRIOS: EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust (1871-1922)
E foi ainda naquele momento — graças a um camponês que passava, com cara fechada, e que se fechou mais ainda quando quase o atingi com o guarda-chuva no rosto, e que respondeu com frieza ao meu “bom tempo, não é mesmo, é bom caminhar” — que aprendi que as mesmas emoções não ocorrem simultaneamente, numa ordem preestabelecida, em todos os homens. Mais tarde, toda vez que uma leitura um pouco longa me punha com vontade de conversar, o companheiro a quem eu tinha vontade de dirigir a palavra terminava justamente de se entregar ao prazer da conversação e queria agora que o deixassem ler em paz. Se eu acabasse de pensar em meus pais com ternura e de tomar as mais sábias decisões, as mais adequadas para lhes dar prazer, tinham eles empregado o mesmo tempo para tomarem conhecimento de algum pecadilho que eu tivesse esquecido e pelo qual me censurariam com severidade no momento em que corresse até eles para beijá-los. 

PROUST, 2004, p.133


Combray
NO CAMINHO DE SWANN 
(Em busca do tempo perdido)

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