CARTA A UM AMANTE DESCONHECIDO

Não nego, sou uma libertina, essa é minha natureza, sempre fui assim. Prezo pela liberdade de consciência, na total conscientização dos atos, nunca arrependo das minhas decisões, vivo cada instante prazeirosamente sem temer as consequências. 

Eu sou romântica, vivo num conto de fadas moderno criado por mim, se eu tivesse poderes de visão veria o meu futuro para saber quem é o meu grande amor. Estou lendo Novelas Exemplares, de Cervantes, e nas novelas que eu li o amor triunfou em algumas histórias, salvo a última onde a virtude falou mais alto que a desonestidade e corrupção. O amor tem poder de mover montanhas e se é o destino dos amantes ficarem juntos nada e ninguém impedirá, com exceção da morte. Se for do nosso destino ficarmos juntos assim será.

Imagino que você lê essas cartas e um dia irá aparecer pra mim dizendo que as leu todas e se apaixonou por minhas palavras. Você sabe que na verdade eu nem existo? Sou fruto da imaginação da minha criadora que nas horas de solidão dela resolveu dar vida à minha personagem e cobrir o vazio do coração dela. Eu não existo, no fundo não se apaixonará por mim e sim por ela. Meu nome é Madame K. Sou uma cópia daquela  de quem escreve, um despertar das paixões adormecidas ou uma simples invenção saída de uma imaginação atormentada? Não sei quem realmente sou, só sei que nada sei e que vou ganhando vida e palavras a cada nova carta romântica endereçada a um amante desconhecido.

MADAME K.

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