A TERAPIA DE JANAINA RAMOS - SEGUNDA SESSÃO: SOU REAL?

Quem nunca já pensou em estar vivendo num sonho no qual ainda não acordou, de viver num estado em que está "sonhando acordado", num estado de sonambolismo. Muitos já me chamaram de estranha, de viver no mundo da lua, já acreditei e cheguei a crer que eu pertencia mais ao mundo da imaginação do que à realidade. No primeiro ano da faculdade encantei-me pela filosofia de Platão, dizia que "Eu sinto um amor platônico pelo Platão", e queria ser que nem o personagem dele do Capitulo 7 da Caverna da obra "A REPUBLICA". 

Sentia como se eu fosse uma prisioneira recém-saida de uma caverna sombria e que pela primeira vez eu podia ver a luz, de sentir como um ser humano, ser real e viver. Eu vivia numa caverna só que ninguém percebia, ou ninguém queria me enxergar, a minha caverna eram os livros; ao contrário de sentir-me livre pela leitura eu era presa a um mundo em que sentia segura, eu não tinha ninguém com quem conversar além dos livros. 


A minha vida era, ainda continua sendo um pouco, fantasiada por aventuras extraídos dos meus romances favoritos, eu desejava ser alguém que não era; uma heroína, donzela em apuros, vingarista, fada, garota telepata, enfim, algo emocionante que preenchesse o vazio da minha vida. Ainda sinto um vazio dentro de mim, algo sentido que é diferente que eu sentia antes, um sentimento novo; o meu vazio de antes era pela ausência de viver um romance, agora eu vivo um romance "também" na vida real, o problema maior agora é o outro vazio. 

A sociedade nos dita inúmeras regras, dentre elas a mais importante é a da sobrevivência. Todo ser humano para continuar vivo depende de comida, para comermos há a necessidade de trabalhar para nos alimentarmos. Não trabalhamos não tão-só pela comida e pelo dinheiro, e sim pela satisfazação de exercer alguma função, de assumir uma carreira e crescer profissionalmente. Pelo menos é assim que eu penso. Eu não trabalho há um ano e sinto muita falta de acordar cedo ir para o trabalho e ser alguém profissionalmente. A sociedade exige isso de cada um de nós.

As vezes penso que se não faço parte de algo é como se eu não existisse, eu sempre busquei ser parte de algo para sentir que sou real, que existo para as outras pessoas, e consequemente, sou importante. Na escola eu não participava de nenhum grupinho, todo o tempo era só eu e os meus livros, talvez esse seja a raiz das minhas inquietações. Se na escola eu não interagia com ninguém, eu era alguém invisivel para os outros, pois era como se eu não existisse para eles, era só eu no meu mundinho imaginário. Agora talvez eu não exista para o mercado de trabalho, falta então firmar a minha existência e voltar a trabalhar para sentir que sou real, que sou alguém da sociedade e que tenho um papel importante a cumprir.

Eu ainda vivo na fantasia, eu possuo alma de poeta, sou sonhadora e feliz do jeitinho que sou. Há tempos que já me libertei da caverna só que ainda há escuridão na minha vida, sou uma prisioneira recém-liberta que não tem medo de cair com os próprios passos e vai em busca do conhecimento. Eu sei que existo, sou real, posso ter poucos amigos, contudo, nunca deixei de acreditar em mim.

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