O DESPERTAR

Silêncio e desespero. Desperto na madrugada incestuosa de pensamentos. O sono vai embora ao abandono da escuridão. A insônia prolonga o meu pesadelo. Lá fora as luzes da cidade iluminam a rua, no meu quarto há ausência de luz e as assombrações tomam espaço.

Sinto um súbito desejo de escrever, uma idéia de criar uma história fantástica me vem à mente, o vazio devasta as idéias e as mandam embora no horizonte esquecido. O que irei escrever se não penso em nada?


Ouço um barulho, rajadas de vento invadem o meu quarto, vozes de espíritos dizem algo que não decifro, sinto que não estou sozinho. Escuridão e silêncio. As vozes se foram. As luzes se acendem e vejo todos os meus livros arremessados no chão, e um livro me chama a atenção numa passagem de Proust:

“Um homem que dorme sustenta em círculo, a seu redor, o fio das horas, a ordenação dos anos e dos mundos. Ao acordar, consulta-os por instinto e neles verifica, em um segundo, o ponto da terra em que se localiza, o tempo que transcorreu até o seu despertar; mas essa ordem pode se confundir e romper.”

Proust iluminou a minha visão. Sou um prisioneiro da minha mente, há anos que vivo trancado em meu quarto sem sair para lugar algum, vivo preso em mim. Aqui as horas se confundem com os minutos e os dias, não percebo a passagem do tempo, não envelheci e nem rejuvenesci, continuo na mesmidade de antes, o tempo não passou. Vejo uma nebulosidade em meu passado, não lembro de nada, não sei quem sou ou por que existo.

Será que a minha existência foi em vão? Sou um homem sem memória e sem passado, vivo num presente sempre constante num futuro distante. Em meu quarto vivo inúmeras histórias dos personagens de meus livros, dos livros que já li, dos que escrevi, dos que nunca lerei e dos que estão por vir. Sou um homem há procura de sua identidade, de sua memória, de suas lembranças, de seu passado, de sua vida… Talvez eu ainda não saiba que já morri e fiquei preso na idéia de escrever uma história fantástica que não foi a minha vida. Vivi, morri e agora quero contar a minha história.

LUCIANO DE RUBEMPRÉ

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