LABIRINTOS URBANOS
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João Paulo Prestes
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O anoitecer descampado lá de fora,
Com teias de paciência, em mesura
Mínima, quebra-se em claridade...
Imediatamente, rompe-se em aventura...
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Faz de seu amanhã nosso costume,
O sólito povo em seu passear
Pelas labirínticas ruas urbanas
Num abafo – talvez tédio –, a suspirar...
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Entanto, nestes labirintos urbanos
Vago por entre pilhas de detritos...
Como em névoas pálidas e nevoeiros
– Cercos nebulosos de sufocos restritos...
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No passo da geada, as auroras calorentas,
Sufocos, em abalos de eudiapneustias...
E, como surto, os célebres labirintos
Assumem ares sensuais em jovens folias!...
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Dezembro! Em seus cilmas natalícios,
Aturde-se a noite em seu deserto...
E eis que ela se dissimula
De dia pândego, a céu aberto!...
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Um dormir sem silêncio seduz as locandas...
Ornatos d’aljofres a piscar, luzidios!...
E dormem... semelhantemente acordadas,
Vigílias festivas, no brilhar dos atavios!...
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Somente a felicidade familiar,
Por acaso, nestes brilhos dorme?...
Penso... e pensarei, com certa piedade,
Que neste adormecer luniforme
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Dormirá tudo quanto se vive...
Durmam... mesmo os males castigados!...
Durmam santos e tartufos!...
Durmam... no purgatório dos fados!...
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Tenho segerdos nesta crônica urbana...
Que revelar-vos poderá somente quem?...
Parente algum... condiscípulo, menos...
Quem?... Somente um segredo... em segredo d’alguém...
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O fado urbano – este, continuamente urbano –
Continua, sempre no ocaso vespertino...
Assi, cogito comigo mesmo:
Nenhum florão é mais que um paladino!...
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Pois pensai vós próprios o que estou
A falar: vede as calçadas desta cidade,
E tanto lá como cá o mesmo sentir...
Idem nos arrabaldes – a forte verdade...
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Mais que se saiba disto, é meu desgosto
Sentido... único, sem nada compreender...
Milhões de oportunidades que se intentem adventos,
O meu intuito viril... é o emudecer...
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Diante deste estado, nada se decide...
Nada... no positivo e no contrário...
Desta forma, enquanto evoluem os outros,
Comigo vivo inerte... em silêncio vestigiário...
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A continuar este círculo urbano,
Vedes mais... que a mágoa, muito mais...
Vedes uma incapaz insanidade
De ser feita sã... nestes cenáculos animais!...
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Cenáculos animais... Ah! Penitências rofundas...
Como penitência, a última refeição
De fim de noite, lamentando aos quatro céus
Minha pena... com apostemas de desolação...
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Desolado! Eu! Na soledade labiríntica
Das ruas urbanas, perplexo aos distúrbios...
Perplexo... às eclâmpsias e aos desânimos
Aos milhares, no marasmo dos subúrbios...
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Subúrbios... como para estes labirintos,
Costumo olhar, entediado, sob fuligens...
A contaminar-me destes carbúnculos,
Contamino-me, também, deste ar de vertigens...
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Vertigens... como estes distúrbios...
Desencontros de harmonias embaraçosas...
Nestes célebres labirintos... nada é célebre...
Célebres, somente tristezas lastimosas...
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Vago continuamente... e mui triste, vejo
Sentimentos sentidos sem sentimento...
Sem sentimento, fingem sentir-se,
Sentindo drama sobre lamento...
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Drama?... Lamento?... Quão não senti eu...
Dramaticamente, entre plena juventude...
Todavia, unicamente eu... os senti –
Misto terrulento de tédio e ataúde...
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Para tanto sentir dolente... querer mais o que?...
Querer fortuna?... Potestade qu’essa, mor?...
Jamais... querer somente um extremo
Suspiro... qu’este convívio de desamor...
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Como outrora, não mais a cidade enxergo...
Enxergo uma náusea desértica nas ruas...
Nuvens anuviadas, obsidentes...
Fendas procelosas... na serenidade das luas...
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Querer sentir este deserto urbano?...
Para que?... Noites são como os dias claros...
Ambos priapescos, bons e maliciosos –
Perturbações exatas de sensíveis faros...
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Que mais quero?... Quero a mim próprio...
Porém, aos meus caros, meus afetos!...
Abraços e sentimentos fugidos,
Que eu mesmo perdera... debaixo destes tetos...
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Fim de semana... e se dissipam os labirintos...
A perder de vista, silêncios enigmáticos
Em tardes áridas e noites nubladas,
Céus ferrugíneos... como pântanos selváticos...
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Novo dia... recomeça a dessuetude...
E, mais uma vez, como velhos conhecidos,
Os labirintos urbanos! Usanças cimérias!
Absoluto esplim de esplendores aborrecidos!...
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E o sol levântico... inda se não alteou...
E eu... em lágrimas a esperar por ele...
Eu, lugente homem de visões frouxas...
Literato prócer, fortaleza imbele...
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Em meio a esta estúrdia estultícia,
Detenho meus passos céleres... e penso:
Ou perdurar... em constelações estelares,
Ou perecer... neste vórtice hipertenso...
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Receoso, não esperei pelo pior...
Escolhi a última, como solução pessoal
De meus problemas fantasmagóricos,
E me findei... à espera deste final...
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Banido eterno... no seu destino profundo,
Mais profundo que os marítimos colossos –
Trinos diamantes destes continentes,
Lares genuínos de imaculados alvoroços!...
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O primeiro Pacífico – como atesta seu nome –
Pacíficos turbilhões de delgados acenos...
Filarmônicos sopros dos oceanos,
Ideais simulacros dos paraísos norrenos!...
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Atlântico – este, glorioso por nome –
Pátio predestinado de ilustres heroísmos!...
A caminho do ocidente, destes longos mares,
Nasceu a América – continente dos imperialismos!...
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Finalmente, Índico... por aqui também passaram
Os famigerados europeus, em busca de novas terras...
Aí especiarias – coroas destes primos impérios...
Sólidas virtudes... imortalizadas nas suas guerras!...
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Estes históricos passados... importam neste canto?...
Estes “heróis do mar”, retratados no hino lusitano?...
Sim – ao desenhar-nos nestes povos avoengos,
Não – por ser meu escondedouro, este nada lhano...
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Tédio com que, em forma de névoas embaçadas,
Apago-me... eruginoso, num tom d’esconjuro...
Exatamente eu, convido-me a saborear
No arranco da frenesi, meu destino perituro...
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A um único assistir urbano, estratificam-se
Cataclismos emocionais com asmas convulsivas...
Espásticas dispnéias segregam ares empalecidos,
Seguidos de parestesias e equimoses nocivas...
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Tantos males... são poucos para muitos?...
Para muitos, minazes abalos de bonança...
Porém, a mim – um destes poucos –
Nervos hétegos... abalados de insegurança...
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Outra vítima é o fadário... malogrado...
Sem mais, nem menos, nos olhos atiça
Nuvens pandêmicas d’azinhavre,
Em decomposição, formosura noviça...
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Ferrugens a alimentar-se de prosperidades...
Que falta de fortuna a minha! Completa!...
Sozinho, caminhando em vaga desrazão
À ditadura sofisticada dum aprisionado poeta!...
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Que, gélido, rusguento... à sua hermética quinta,
Compõe na lígnea mesa a que trabalha
Seus versos, embrutecidos e rijos –
Biografias poéticas, em plena cúspide de navalha...
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Verbos pontiagudos de vesânicos ferrões...
Cingindo-me, dentro de aracnóideas teias
Pendentes nos ares, como pulverulentas cortinas,
Asfixiado em cenestésicas cadeias...
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Brilham raios solares fora de meus olhos,
Revestidos de lúridos lusco-fuscos,
Sonolentos, em quiescentes devaneios
Atrás do ocaso, de sonhos céticos e bruscos...
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Em meus sonhos, realmente parece tudo perder-se...
Como um bando silenciasse, efêmero, numa sala,
Onde o conversar finge exprimir-se
Com estático silêncio, silenciado em sua fala...
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E nestes vejo, nada menos que conhecidos...
Mas que me faz compreender, isto, de facto?...
Creio ser sonhos dantes jamais sonhados,
Colocadas faces vagas... em agnóstico contacto...
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No abrir dos olhos qu’inda pernoutam,
Logo esquecidos fazem-se estes castelos,
Fantasiados às areias do inconsciente:
Castelos urbanos!... Concretizados Parnasos belos!...
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Castelos urbanos dum silêncio lírico,
Concentrado aqui em mim, de meu fado absconso...
Entretido com mirabolantes tentames
De vivificar o barulho mundano num responso...
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E eu, pensando no remorso de que me compadeci,
Turbilhões se me criaram, mesclados de trauma...
Sossegos guilhotinados, decapitados...
Uníssonos estrondos sobre nódulos de calma...
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Sonharei melhor num elísio urbano...
Chusma de flores e moinhos gigantescos!...
Trocados por este condomínio nordestino,
Rincão holandês, levado aos olhos como arabescos!...
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Escritores(alguns dos que,impossivelmente,ouvem-me),
Direis que, bilhões de poetas, fecham-se entre si?...
Por que eu somente, num extenso orbe?...
Por que, em caminho ermo, só eu existi?...
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Talvez sejam pontos antípodas no círculo urbano,
Que se fecham, semelhantes à intempérie...
Embaixo – os vilarejos, acima – novamente,
E, pela centésima vez, os labirintos fora-de-série!...
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Apenas se fechem as irmandades desdenhosas,
Contrapostas entre si, odiando-se sem querença...
E abram-se outras, paralelas, inseparáveis,
Sempre juntas, igualitárias na indiferença!...
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E os homens que se afastam entre si,
Unam-se!... Ser-lhes-á bom que para um só...
Para um só, repulsão violenta de si mesmo,
Repelir-se... tendo na mágoa, a própria dó...
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Por falar em homens, custa a mim materializar-me?...
Haver modos másculos, como o hão, da minha idade muitos?...
As respostas, leitores, estarão nas perguntas
Que, para mim mesmo faço, com inusitados intuitos...
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Que pensamentos parvos... ocupados nestas horas!...
Divididos entre o inverno e a primavera...
Dos dois, senti o sorrir perder:
A primavera... à minha espera...
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Perdi?... Paciência... encarregar-se-á dele
O tempo (sem sentimentos, fado feliz)...
Feliz... por que, afinal de contas, maldi-lo-ia?...
Fazer-me salvo, somente ele, por um triz...
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Falecer poderia até... mas em perene réquiem,
Sentirei saudade dos prazeres periódicos...
Os materiais, são cascas espalhadas no vento,
Magros... como os próprios rostos marasmódicos!...
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Comisere-se de meu estado, quem bem entendê-lo...
A desentender-se, que algo entender-se-á?...
Entendemo-nos, entendendo-se cada um,
Entendendo seu problema... assi somente querer-se-á...
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Interessa-me pouco sofrê-lo... quase nada...
Interessa deleitar-me no júbilo campestre,
À frutescência dos pomares e das flores,
Vendo distender-se a catadupa rupestre!...
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Que mais querer poderia eu, além desta natureza?...
Um canto poético, em que minha pessoa
Espelha-se nas transparências quotidianas,
Numa voz solipsa que, sob multidões, ressoa...
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Das ressecadas cordas vocais, tento vibrá-la...
Mas voou em branco aos ouvidos adolescentes...
Parara no tempo, como se o tivesse sido...
Provavelmente um idoso, em seus dias decadentes...
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D’alguma forma ou outra, devem sair
Estes versos, talhados como preciosas jóias!...
Como os labirintos, para celebrizar-me,
Caibam-me riquezas divinas, como as sequóias!...
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Celebrizar-me, digo: não ser molesto...
Ser austero, para um Messias poético...
E o quero desde ontem... desde hoje...
Amanhã... concreto, meu verbo profético!...
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Homens da mesma terra, sintam todos
O mesmo que eu, diante da pernície...
Verão verdade no que eu digo...
Ao entendê-lo, não quererão mais nesta superfície
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Assistir... e assistir a seus paroxismos...
Como já os vi, exausto, cansei de mudá-los...
E para que fazê-la, a mudança, se já
Nos damos ao termo, validos destes estalos?...
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Recomendo como pais: crescei vós, povo,
No paraíso destes versos – sonhos antigos!...
Tende nele vossas lúcidas vivendas,
Não na praia – criadouro estético de vitiligos!...
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À juventude: carregue a doutrina enciclopédica!...
Carregue-a até a morte, em prol
Da penúria – bem do coração mais puro –
E de toda a juventude, que ilumine nosso sol!...
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Às fases da vida... crie-se-lhes estes lugares!...
Os céus dos sonhos, estrelados e distintos!...
Tende, povo, em lúcidos céus, vias lúcidas!...
Em lúcidos céus... que em urbanos labirintos!...

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