Grandes Poetas

CHARLES BAUDELAIRE
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Grande prazer mergulhar os olhos na imensidão do céu e mar! Solidão, silêncio, incomparável castidade do azul! uma pequena vela a fremir no horizonte, vela que, pequenina e isolada, lembra a minha irremediável existência; melodia monótona do marulho - todas estas coisas pensam por mim, ou eu penso por elas (pois na grandeza do sonho, o eu de pronto se perde); elas pensam, porém musicalmente, pitorescamente, sem argúcias, sem silogismos, sem deduções.
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FERNANDO PESSOA
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Alma nenhuma mais amorosa ou terna do que a minha jamais existiu, alma nenhuma tão cheia de bondade, de compaixão, de tudo quanto é ternura e amor. Contudo, nenhuma alma tão solitária quanto a minha - não solitária, note-se, não em virtude de circunstâncias exteriores, mas de interiores. Explico-me: juntamente com minha grande ternura e bondade um elemento de espécie inteiramente contrária penetrou em meu caráter, um elemento de tristeza, de reconcentração, de amor-próprio portanto, cujo efeito é duplo: desvirtuar e impedir o desenvolvimento e o pleno jogo interno daquelas outras qualidades, e de obstar, por afetar depressivamente a vontade, seu pleno jogo externo, sua manifestação. Deverei analisar isto, algum dia examinarei melhor, discriminarei, os elementos de meu caráter, pois minha curiosidade por todas as coisas, ligada à minha curiosidade por mim mesmo e pelo meu próprio caráter, conduz a uma tentativa de compreensão de minha compreensão.
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CHARLES BAUDELAIRE
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A que demônio benévolo devo eu o estar assim cercado de mistério, de silêncio, de paz e de perfumes? Ó beatitude! aquilo a que em geral chamamos a vida, nada tem de comum, mesmo na mais feliz das suas expansões, com esta vida suprema que eu agora conheço e que saboreio minuto a minuto, segundo a segundo!
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FERNANDO PESSOA
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Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.
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CHARLES BAUDELAIRE
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Oh, sim! ressurgiu o Tempo; o Tempo agora reina como soberano, e com o horrendo velho retornou todo o seu cortejo demoníaco de Lembranças, de Pesares, de Espasmos, de Terrores, de Angústias, de Pesadelos, de Cóleras e de Neuroses.
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FERNANDO PESSOA
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Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
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CHARLES BAUDELAIRE
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E os olhos dizem: - "Eu sou o último e o mais solitário dos homens privado de amor e de amizade, muito inferior, neste ponto, ao mais imperfeito dos animais. No entanto, eu também fui feito para compreender e sentir a Beleza imortal! Ah, Deusa! Tende piedade da minha tristeza e de minha loucura!"
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FERNANDO PESSOA
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Não há critério da verdade senão não concordar consigo próprio. O universo não concorda consigo próprio, porque passa. A vida não concorda consigo própria, porque morre. O paradoxo é a fórmula típica da Natureza. Por isso toda a verdade tem uma forma [?] paradoxal.
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CHARLES BAUDELAIRE
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Mais de uma vez fui vítima destas crises e destes impulsos, que nos autorizam a crer que malignos Demônios se infiltram em nós e nos induzem a realizar, à nossa revelia, os seus mais absurdos caprichos.
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FERNANDO PESSOA
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O caráter de minha mente é tal que odeio os começos e os fins das coisas, porque são pontos definidos. Aflige-me a idéia de que se descubra uma solução para os mais altos e mais nobres problemas de ciência e filosofia; horroriza-me a idéia de que uma coisa qualquer possa ser determinada por Deus ou pelo mundo. Enlouquece-me a idéia de que as coisas mais momentosas possam realizar-se, de que os homens pudessem todos ser felizes um dia, de que se encontrasse uma solução para os males da sociedade, mas nas suas concepções. Contudo não sou mau nem cruel; sou louco e isso dum modo difícil de conceber.
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CHARLES BAUDELAIRE
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Descontente com todos e descontente comigo mesmo, ser-me-ia grato redimir-me e vangloriar-me um pouco, um silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles a quem amei, almas daqueles que cantei, fortalecei-me, amparai-me, afastai de mim a mentira e as emanações corruptoras do mundo; e vós, Senhor meu Deus! concedei-me a graça de produzir alguns belos versos que me dêem a certeza de que não o último dos homens, de que não sou inferior àqueles a quem desprezo!
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FERNANDO PESSOA
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Não encontro dificuldade em definir-me: sou um temperamento feminino com uma inteligência masculina. A minha sensibilidade e os movimentos que dela procedem, e é nisso que consistem o temperamento e a sua expressão, são de mulher. As minhas faculdades de relação - a inteligência, e a vontade, que é a inteligência do impulso - são de homem.
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CHARLES BAUDELAIRE
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O poeta goza do incomparável privilégio de ser, à sua vontade, ele mesmo e outrem. Como as almas errantes que procuram corpo, ele entra, quando lhe apraz, na personalidade de cada um. Para ele, e só para ele, tudo está vago; e, se alguns lugares parecem vedados ao poeta, é que a seus olhos tais lugares não valem a pena de uma visita.
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FERNANDO PESSOA
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Em ninguém que me cerca eu encontro uma atitude para com a vida que bata certo com a minha íntima sensibilidade, com as minhas aspirações e ambições, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu íntimo ser espiritual. Encontro, sim, quem esteja de acordo com ativades literárias que são apenas dos arredores da minha sensibilidade. E isso não me basta. De modo que, à minha sensibilidade cada vez mais profunda, e à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de gênio recebe de Deus com o seu gênio, tudo quanto é futilidade literária, mera arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez à altura daquelas qualidades que recebi. Ter uma ação sobre a humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a civilização. E, assim, fazer arte parece-me cada vez mais importante coisa, mais terrível missão - dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador-de-civilização de toda a obra artística. E por isso o próprio conceito puramente estético da arte subiu e dificultou-se; exijo agora de mim muita mais perfeição e elaboração cuidada. Fazer arte, rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo à missão que me sinto uma perfeição absoluta no realizado, uma serenidade integral no escrito.
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CHARLES BAUDELAIRE
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E, voltando-me, perseguido por aquela visão, busquei analisar a minha repentina dor, e disse de mim para mim: - "Acabo de ver a imagem do velho homem de letras que sobreviveu à geração a quem divertiu brilhantemente; do velho poeta sem amigos, sem família, sem filhos, degradado pela própria miséria e pela ingratidão pública, e em cuja barraca o mundo esquecido já não quer entrar!"
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FERNANDO PESSOA
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Circunstâncias várias da minha vida, acrescentadas ao que é talvez uma morbidez de escrúpulo em que não falhe elo na argumentação, têm-me reduzido a um estado de espírito que talvez seja muito bom para a produção de obras de imaginação, mas que para a calma e esforçada elaboração de raciocínios não é auxiliador. Essas circunstâncias de minha vida, que são, umas de ordem material, outras de espécie moral, - parece-me que o meu amigo não considera que possam existir, visto que declara não perceber o meu silêncio literário.
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CHARLES BAUDELAIRE
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Sonhos! sempre sonhos! e quanto mais ambiciosa e fina é a alma, tanto mais os sonhos a afastam do possível. Cada homem traz em si sua dose de ópio natural, constantemente segregada e renovada; e, do nascimento à morte, quantas horas podemos contar preenchidas pelo verdadeiro prazer, pela ação feliz e resoluta? Viveremos jamais, conheceremos algum dia esse quadro que o meu espírito pintou, esse quadro que se parece contigo?
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FERNANDO PESSOA
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Encontro-me agora de plena posse das leis fundamentais da arte literária. Shakespeare não pode mais ensinar-me a ser sutil, nem Milton a ser completo. Meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um alcance que me possibilitam assumir qualquer emoção que desejo e penetrar à vontade dentro de qualquer estado de espírito. Quanto àquilo por que lutar é sempre um esforço e uma angústia, a plenitude, nenhum livro pode servir absolutamente de ajuda.
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CHARLES BAUDELAIRE
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Os Dons, as Faculdades, os bons Acasos, as Circunstâncias invencíveis, estavam amontoados ao lado do tribunal, como os prêmios sobre o estrado, numa distribuição de prêmios. O que havia de particular, aqui, era que os Dons não representavam a recompensa de um esforço, mas, muito ao contrário, uma graça concedida àquele que ainda não vivera, uma graça que podia determinar-lhe o destino e tornar-se tanto a fonte de sua desgraça quanto de sua felicidade.
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FERNANDO PESSOA
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É possível que, mais tarde, outros indivíduos, deste mesmo gênero de verdadeira realidade, apareçam. Não sei; mas serão sempre bem-vindos à minha vida interior, onde convivem melhor comigo do que eu consigo viver com a realidade externa. Escuso de dizer que com parte das teorias deles concordo, e que não concordo com outras partes. Estas cousas são perfeitamente indiferentes. Se eles escrevem cousas belas, essas cousas são belas, independentemente de quaisquer considerações metafísicas sobre os autores "reais" delas. Se, nas suas filosofias, dizem quaisquer verdades - se verdades há num mundo que é o não haver nada - essas cousas são verdadeiras independentemente da intenção ou da "realidade" de quem as disse.
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CHARLES BAUDELAIRE
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Ó noite! ó consoladoras trevas! sois para mim o sinal de uma festa interior, sois a libertação de uma angústia! Na solidão das planícies, nos labirintos pedregosos de uma capital, vós sois, ó cintilação das estrelas, ó explosão das lanternas, o fogo de artíficio da deusa Liberdade!
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FERNANDO PESSOA
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Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, não um só escritor, mas toda uma literatura, quando não contribuisse para me divertir, o que para mim já era bastante, contribuo talvez para engrandecer o universo, porque quem, morrendo, deixa escrito um verso belo deixou mais ricos os céus e a terra e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente.
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CHARLES BAUDELAIRE
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Eu sei que o Demônio é dado a frequentar os sítios áridos, e que o Espírito do homícidio e da lubricidade se inflama prodigiosamente nos ermos. Mas talvez esta solidão só fosse um perigo para a alma ociosa e divagadora que a povoa de suas paixões e de suas quimeras.
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FERNANDO PESSOA
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O primeiro grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, concentrado no seu sentimento, exprime esse sentimento. Se ele, porém, for uma criatura de sentimentos variáveis e vários, exprimirá como que uma multiplicidade de personagens, unificadas somente pelo temperamento e estilo. Um passo mais, na escala poética, e temos o poeta que é uma criatura de sentimentos variáveis e vários, exprimirá como que uma multiplicidade de personagens, unificadas somente pelo temperamento e estilo. Um passo mais, na escala poética, e temos o poeta que é uma criatura de sentimentos vários e fictícios, mais imaginativo do que sentimental, e vivendo cada estado de alma antes pela inteligência que pela emoção. Este poeta exprimir-se-á como uma multiplicidade de personagens, unificadas, não já pelo temperamento e o estilo, pois que o temperamento está substituído pela imaginação, e o sentimento pela inteligência, mas tão-somente pelo simples estilo. Outro passo, na mesma escala de despersonalização, ou seja de imaginação, e temos o poeta que em cada um dos seus estados mentais vários se integra de tal modo nele que de todo se despersonaliza, de sorte que, vivendo analiticamente esse estado de alma, faz dele como que a expressão de um outro personagem, e, sendo assim, o mesmo estilo tende a variar. Dê-se o passo final, e teremos um poeta que seja vários poetas, um poeta dramático escrevendo em poesia lírica. Cada grupo de estados de alma mais aproximados insensivelmente se tornará uma personagem, com estilo próprio, com sentimentos porventura diferentes, até opostos, aos típicos do poeta na sua pessoa viva. E assim se terá levado a poesia lírica - ou qualquer forma literária análoga em sua substância à poesia lírica - até a poesia dramática, sem, todavia, se lhe dar a forma do drama, nem explícita nem implicitamente.

Comentários

  1. Esta seleção está ótima, parece que conversam entre si...
    Um abraço, lindo final de semana

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