Artigos periódicos: “O encanto da palavra”

O encanto da palavra
*
*
*
Compreensão da fala como ferramenta no tratamento psíquico relaciona linguagem e afeto, dividindo opiniões
*
*
*
Por Márcia Simões Côrrea Neder Bacha
*
*
*
“Numa casinha branca, lá no sitio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se Dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando: — Que tristeza viver assim sozinha neste deserto…
*
Mais engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas — Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho, como todos dizem, e de Pedrinho, do Visconde de Sabugosa, da Tia Nastácia, da Emília, do Quindim e de tantos outros personagens que fazem desse sitio o lugar encantado que nãos nos cansamos de visitar.
*
Como um bruxo, Monteiro Lobato apropria-se da potencia mágica da linguagem e toma a fala para enfeitiçar. Não é por meio da linguagem que a bruxaria cria novas realidades, como esse mundo encantado do Picapau Amarelo? A um simples “Abre-te Sésamo” a enorme montanha oferece suas entranhas cheias de tesouros para os quarenta ladrões diante de um estupefato Ali Babá. Nas ares da bruxaria, agir é assim: simplesmente falar. É o que alardeiam, no ano de 1484, dois dos inquisidores medievais, Heirich Kramer e James Sprenger, em seu Malleus Maleficarum — O Martelo das Feiticeiras (RJ: Record: Editora Rosa dos Tempos, 1997). Citando S. Isidoro, eles ensinam que as bruxas, “pela força terrível de suas palavras mágicas, como por um gole de veneno, conseguem destruir a vida”. Tamanho é o poder das palavras que uma bruxa “diz a uma mulher: ‘eu a tornarei cega e coxa’. E assim acontece.”
*
*
*
Cura
*
Freud aprendeu a lição e muito cedo teve, na potencia dessa fala-feitiço, sua maior aliada no campo das doenças mentais, ferramenta essencial do tratamento psíquico. Entretanto, essa articulação intima entre psicanálise e linguagem não se dá sem tropeços: uma importante divergência no modo de conceber a linguagem permanecerá em trabalho no interior do campo psicanalítico, em especial no que se refere a sua relação com o afeto. Essa problemática foi aberta em 1895 com os Estudos sobre a Histeria, nos quais Freud e Breuer comunicaram sua descoberta da talking cure, ou cura pela fala. Freud insistirá sempre que a linguagem é o principal instrumento da terapia analítica ao escrever, em 1905, no Tratamento Psíquico (ou Anímico), que o leigo com certeza achará difícil compreender que os sintomas possam ser eliminados por “’meras’ palavras” e pensará que estão lhe “pedindo para acreditar em bruxarias”, no que não estará tão errado, já que “as palavras de nossa fala cotidiana não passam de magia mais atenuada”.
*
Dez anos depois, ele repetirá o mesmo em suas Conferencias Introdutórias sobre Psicanálise (1915-1916) (vol. XV, p. 28/29): originariamente as palavras eram mágicas e ainda hoje conservam muito do seu antigo poder.
*
“Por meio de palavras, uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero; por palavras o professor veicula seu conhecimento aos alunos; por palavras o orador conquista seus ouvintes para si e influencia seus julgamentos e decisões. Palavras despertam afetos e são o meio universal de os homens influenciarem uns aos outros.”
*
Finalmente, outros dez anos mais tarde, em 1926, Freud voltará ao assunto em A Questão da Análise Leiga (vol. XX), dizendo que nada acontece entre analista e paciente a não ser que conversem entre si. E já imaginando o deboche em seu interlocutor imaginário, a “Pessoa Imparcial” a quem ele se dirige no texto, diz que ela só pode estar pensando como aquele famoso personagem de Shakespeare:
*
“Nada mais do que isto? Palavras, palavras, palavras”, como diz o príncipe Hamlet. E sem duvida ela também está pensando na fala zombeteira de Mefistófeles sobre com que conforto se pode ir passando com palavras — versos (de Goethe, Fausto, Parte I, Cena 3) que nenhum alemão jamais esquecerá”.
*
A “Pessoa Imparcial” concluiria: “Assim é uma espécie de mágica: o senhor fala e dissipa seus males”. E Freud mais uma vez adverte: “não desprezemos a palavra. Afinal de contas, ela é um instrumento poderoso; é o meio pelo qual transmitimos nossos sentimentos a outros, nosso método de influenciar outras pessoas. As palavras podem fazer um bem indizível e causar terríveis feridas. (…) Mas originalmente a palavra foi magia — um ato mágico; e conservou muito de seu antigo poder”. “A Pessoa Imparcial” então o desafia: e como o senhor vai fazer o paciente “acreditar na magia da palavra ou da fala que deve libertá-lo de seus sofrimentos?” (p. 183).
*
Ora, isso Freud já havia feito em 1895, quando escreveu com Breuer seus Estudos sobre a História, em que eles propunham uma nova definição da histeria como doença das reminiscências psíquicas, e apresentavam o método catártico como um novo tratamento para as doenças mentais.
*
*
*
Uma paciente, hipnotizada, experimentou o efeito liberador da palavra: em transe, lembrava-se do que desencadeara o sintoma e falava sobre o fato ao mesmo tempo que exprimia o afeto reprimido. Inaugurava-se a terapia catártica, a “cura pela fala”
*
*
*
Ab-reação
*
Nesse livro, Breuer relata o caso sua paciente histérica de 21 anos registrada pela historia da psicanálise — que ela ajudaria a fundar — sob o pseudônimo de Anna O. Surpreso, Breuer observou que cada sintoma histérico desaparecia quando conseguia levar a paciente, sob hipnose, a recordar-se do fato que o havia provocado e a “descarregar” — isto é, ab-reagir — o afeto a ele relacionado. O acontecimento tornara-se traumático ou patogênico justamente pela repressão do afeto. Após cada uma dessas sessões catárticas, um a um os sintomas desapareciam; bastava que Anna se lembrasse do trauma, ou seja, do acontecimento que vivera sem dar vazão ao afeto concomitante, para que o mal se dissipasse. Daí a formula criada por Freud para essa nova teoria da histeria: “os histéricos sofrem de reminiscências”.
*
Um exemplo pode tornar isso mais claro: a impossibilidade absoluta de beber água apresentada por Anna, apesar da sede horrível que sentia. Bastava encostar o copo em seus lábios para que o repelisse resolutamente como se sofresse de hidrofobia. Hipnotizada por Breuer, ela murmurou alguma coisa sobre a sua dama de companhia, de quem não gostava, e descreveu com muito nojo o dia em que entrou no seu quarto e viu o cão dessa mulher bebendo num copo. Tentando ser gentil, Anna não disse nada: apenas assistiu à cena e reprimiu sua repugnância. Só depois que conseguiu exteriorizar pela fala o nojo e a raiva que havia contido na ocasião, ela pode livrar-se do sintoma: imediatamente pediu alguma coisa e bebeu sem qualquer dificuldade uma grande quantidade de água. Dessa maneira, após sua recordação e subseqüente ab-reação do afeto reprimido, um por um os sintomas iam desaparecendo.
*
Em O Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos (1893), Freud já havia explicado a gênese do sintoma histérico pelo fato de a pessoa impedir a ab-reação. Se a pessoa reagir de modo adequado a um acontecimento, nada acontecerá. Entretanto, se reprimir o afeto que acompanha a ocorrência, este permanecerá ativo como um “corpo estranho”, dando origem às manifestações patológicas.
*
*
*
Por meio de palavras, uma pessoa pode tornar outra feliz ou levá-la ao desespero, por palavras, o professor veicula conhecimento aos alunos. Palavras despertam afetos e são o meio universal de os homens influenciarem uns aos outros
*
*
*
Purgação
*
A expulsão do afeto reprimido promove uma catarse que tem sido tradicionalmente interpretada como “purgação”, e essa teria sido a experiência fundamental de Anna O. Ou seja, Anna experimentou o efeito libertador da palavra porque, hipnotizada, lembrava-se do fato que havia desencadeado o sintoma e falava sobre esse fato ao mesmo tempo exprimido o afeto reprimido. Traduzindo em palavras o acontecimento original e descarregando o afeto que o acompanhara, a palavra inaugurava a terapia catártica que ela denominou, justamente, de “talking care” ou cura pela fala. Pela fala, ela expulsava o afeto, o “corpo estranho” invasor, esvaziando-se. A supressão do afeto seria a base da terapêutica pela fala e a psicanálise teria nascido da descoberta desse efeito libertador da fala catártica. Como no exorcismo, a palavra catártica expulsaria o “corpo estranho” que habita o sujeito como um hospede inconveniente e endiabrado.
* Entretanto, Monique Scheneider observa que há uma enorme distancia entre o relato de Breuer dessa sua primeira experiência catártica na “Comunicação preliminar” (Estudos sobre a histeria) e a narrativa subseqüente de Freud com suas pacientes tratadas com esse método. O tratamento de Mme. Emmy, apesar de promover o esclarecimento dos sintomas não conseguiu atenuá-los. Com Miss Lucy, Freud verá que a razão de ser de sua neurose é a fuga diante do afeto: por medo do afeto, Lucy tentou dele livrar-se sumariamente e por isso adoeceu. O mesmo aconteceu com F. Elizabeth, que se recusou a reconhecer-se em um sentimento apaixonado, refugiando-se numa espécie de inconsistência. E a interpretação do seu sintoma não lhe provocou nenhum efeito liberador.
*
Esta observação atenta permitirá à autora de Afeto e Linguagem nos Primeiros escritos de Freud (SP: Ed. Escuta, 1993) afirmar que a interpretação dada à fala catártica será um divisor de águas no legado freudiano: trata-se mesmo de expulsar o “corpo estranho” ou, ao contrário, de assimilá-lo?
*
*
*
Catarse digestiva
*
A interpretação da catarse como uma “purgação”, como uma descarga do afeto é questionada por Monique Scheneider, que radicaliza a origem aristotélica da expressão “catharsis” para enfatizar a encenação que caracteriza a tragédia e que é o contexto no qual a expressão teve origem. Esta psicanalista situa na interpretação dada à fala catártica a polêmica que está no cerne do que diferencia as diversas heranças no pensamento de Freud.
*
A versão oficial vê a talking cure como confirmação da hipótese inicial: a linguagem teria um poder miraculoso de libertar o afeto aprisionado. Esse efeito liberador da linguagem sobre os afetos revelaria o poder maior da psicanálise.
*
Entretanto, psicanalista contemporâneos questionam essa versão oficial dos primeiros passos em direção à terapia psicanalítica e pensam, como Monique Scheneider, que para que a linguagem se libertar é preciso que o afeto se desenvolva, ao invés de ser eliminado. Conclui-se que a cura de Anna O. deveria ser atribuída aos poderes da fala, mas a fala de Anna é uma fala encenada. Resgatando a herança trágica que a noção de catarse conserva, Monique Scheneider observa que a catarse não é um simples misto de linguagem e afeto, mas uma fala primeira, uma fala que reproduz como dramatização que o só pode ser vivido em silencio, sufocado, estrangulado.
*
Estamos assim diante de uma concepção diferente da linguagem. Aqui, longe de se opor à linguagem, a emoção é o seu fundamento e talvez seu esboço. O corpo, o afeto, é a fonte da linguagem; a expressão verbal “engolir algo”, que usamos para falar de uma ofensa sofrida sem resposta, é uma tradução figurada de movimentos corporais. Essa é uma concepção diferente de Lacan, para quem a simbolização, a linguagem, é a própria fonte da linguagem (o significante remetendo a outro).
*
Além disso, o afeto é também linguagem. Idéia impossível para Lacan, porque ele identifica o afeto com o inarticulado.
*
Se a linguagem prolonga o afeto, então não há um tal dualismo afeto-linguagem. Essa outra concepção da linguagem modifica também nossa idéia de catarse. Ela já não pode ser vista como um puro trabalho verbal de eliminação do afeto mas, ao contrário, um desenvolvimento do afeto. O recurso a esta linguagem dramática, catártica, realiza o afeto ao invés de esvaziá-lo e suprimi-lo. É do afeto interiorizado e engaiolado que é necessário liberar-se. Não basta pôr em palavras o afeto para libertá-lo: é preciso vivê-lo sem reservas. Era assim que faziam as bruxas, cuja palavra encena o desejo (perseguindo como o Demônio). A mulher demoníaca dá a palavra aos desejos nascidos da sombra e prontos para evoluir no fantástico, diz Monique Scheneider em De l’exorcisme à La psychanalyse. Le féminin expurgé (Do exorcismo à psicanálise. O feminismo expurgado).
*
Nessa outra maneira de conceber a linguagem ela já não é um simples instrumento de comunicação de informações; ela não tem apenas o poder de fazer compreender ou de “colocar às claras”. Como o sonho, a linguagem torna-se também um poder de fazer ser uma realidade, uma função encantatória ou poética que faz ser as coisas de que falamos. A linguagem é esse poder de transformar-se, de tornar-se outro, de capturar o outro, de enfeitiçá-lo, de emocionar o coração e inflamar as paixões. É o que Monique Scheneider chama de linguagem apaixonada, que é aquela que simultaneamente fala e faz sentir, que “arranca” do outro movimentos de sensibilidade. A linguagem não somente diz as coisas: ela as transforma. A fala, a linguagem, a palavra tem poder, como mostra a fala-feitiço do analista. A fala informativa, que se pretende puramente iluminadora, esclarecedora, elucidativa, é um mito.
*
Então, as evocações dramáticas de Anna apresentada por Breuer como “catarse” são uma linguagem dramática, uma fala primeira; Anna toma posse de suas emoções intimas (ao invés de se livrar delas), exprimindo-as teatralmente. Para Breuer, o traumatismo inicial seria o afeto excessivo; para Schneider o traumatismo inicial seria o afeto reduzido ao silencio e, por isso, privado de desenvolver-se.
*
*
*
Razão X desejo
*
No campo psicanalítico, aqueles que tem a posição freudiana oficial, digamos assim, situam a palavra do psicanalista, em sua função interpretante, em um domínio objetivo e depurado, como uma palavra racional e douta, que não estaria implicada naquilo que ela tenta iluminar. Nessa concepção racionalista ou intelectualista, supõe-se que a fala tem por função transmitir informações.
*
Entretanto, para C. Stein, toda palavra psicanalítica, por mais esclarecedora que seja, é também potencia de sedução. O psicanalista intervém como juiz e como sedutor, realizando assim as funções que, nos processos de bruxaria, eram do inquisidor e do Demônio — sendo que a sedução do Demônio se prolonga na da bruxa ou do bruxo. A visão que tem C. Stein tem sobre os efeitos da palavra enterra as pretensões de uma concepção radicalmente exorcizante ou purificante do discurso não-cúmplice. Interpretar é acender o desejo, é convidar, como a bruxa, para o sabá imaginário.
*
A fala tem uma dimensão tentadora, diabólica, sedutora, como mostram As Mil e uma Noites de Scheerazade. Como ela, o analista convida o paciente a entrar nesse lugar onírico das metáforas poéticas, um lugar onde a linguagem não tem uma função comunicativa, informativa, e sim de fazer sonhar.
*
Falar é criar e a palavra tem esse poder de encantar, de enfeitiçar e de seduzir e é nessa potencia que se situa um dos elementos da eficiência psicanalítica. O analista é cúmplice do imaginário, do fantasma e do reino noturno. Ele é um bruxo e não um cientista informando e esclarecendo. Em Estudos sobre a Histeria, Freud se consola por usar a linguagem literária dizendo que é a natureza do objeto que o exige. E, ao longo de sua obra, ele usa a loucura e a magia da linguagem, e recorre a sua “feiticeira metapsicologia”, construindo suas teorias com seus encantamentos e feitiços.
*
Como observou Monique Schneider, estamos longe das metáforas expulsivas da “Comunicação preliminar” onde o “corpo estranho” era expelido e rejeitado na medida em que era “expresso”. É o estudo de Elizabeth que marca a reviravolta mais nítida, levando Freud a abandonar as metáforas anais por metáforas orais: assimilar seu amor pelo cunhado ao invés de expulsar o afeto.
*
Longe de suprimir os afetos, a catarse digestiva é um trabalho de bruxaria, que quer acender, fazer arder e inflamar a paixão, ao invés de adormecê-las sob uma interpretação asséptica. E assim expandir os limites do eu levando-o a modificar-se pela incorporação, pela metabolização ou admissão em si, do afeto que o apavora, como apavoraram Miss Lucy e F. Elizabeth.
*
*
*
Márcia Simões Corrêa Neder Bacha é psicanalista, doutora em Psicologia Clinica, pós-doutoranda em Psicologia Clinica na PUC-SP e autora de Psicanálise e Educação: Laços Refeitos (Casa do Psicólogo/UFMS, 1998) e Arte de Formar: O Feminino, o Infantil e o Epistemológico (Vozes, 2002)

Comentários