Artigos periódicos: “O atrito do papel”

O atrito do papel
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A qualidade do texto de Freud mostra a importância para a psicanálise da interlocução com um leitor a ser conquistado
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Por Fábio Herman
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Este titulo parece sugerir um tema muito freqüentado pelos debates psicanalíticos, a saber: a relação entre a psicanálise freudiana e a das escolas. A tendência dos sholars é identificar Psicanálise e doutrina freudiana; a dos analistas praticantes, distingui-las, às vezes excessivamente, ocasiões em que somente se substitui sua doutrina por outra. Na minha opinião, seria preferível manter viva uma certa tensão: as muitas psicanálises, atendimentos, intervenções sociais, investigações da cultura, teorias especiais e sistemas gerais, as psicanálises que se vão criando devem reconhecer sua diferença, sem adaptar a si a obra freudiana.
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Esse não é, porém, o tema que desejo explorar aqui. O que me interessa é algo que, tanto quanto sei, simplesmente não se costuma discutir: a relação entre o pensamentos de Freud e a Psicanálise, a ciência que inventou. Não será difícil admitir que a Psicanálise é mais que o pensamento freudiano, como estamos vendo, mas a recíproca pode ser verdadeira: talvez o pensamento de Freud seja mais que a Psicanálise. Dito de outra maneira, a psicanálise que nos transmitiu é parte da Psicanálise, do universo de aplicação do método por ele próprio criado; todavia, nem tudo que Freud pensou é Psicanálise e sua obra escrita, mesmo tendo sido um típico pensador por escrito, tampouco há de coincidir completamente com seu pensamento.
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Acredito que todos vocês já tenham tido a experiência de olhar uma página escrita e concluir: não era bem isso que eu queria dizer. Aquilo que exatamente eu queria dizer era… Ora, se pudesse pôr em palavras claras, você o teria escrito. Quem escreve quase todos os dias, como eu, sabe que a questão não é simplesmente da incompletude, inevitável no escrever e no falar, nem sequer de qualidade. Acontece às vezes de se escrever — principalmente, mas em certas ocasiões até de falar — algo melhor e mais completo que se havia pensado. Porém, não o mesmo. Empregando uma expressão mais apropriada a outros tempos mais substanciais, digamos que há um atrito de papel a modificar o pensamento.
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Em certas ocasiões, a composição de forças entre o pensamento quase puro e o atrito de papel produz um resultado inesperadamente claro, mais conciso, mais elegante, talvez mais preciso e até mais completo que nossa intenção intima. É parecido com o esqui: a qualidade da neve e a inclinação da pendente podem obrigar-nos a apurar o traçado de nossas voltas, transformando-nos, numa baixada, em esquiadores melhores do que realmente somos. E como há um atrito do papel, onde um tanto se perde, mas com a prática, algo também se ganha, existe um atrito da palavra, que é mais geral, estende-se à fala, até ao gesto que a acompanha. O esquiador bem dotado e tecnicamente capaz tenta reter, tanto quanto possível, a sensação muscular da volta melhor que a sua própria, que acabou de realizar, para utilizá-las em condições diversas de pista; o escritor procura aprender de seu escrito, para convertê-lo em escrita, em estilo.
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Em certas ocasiões, a composição de forças entre o pensamento quase puro e o atrito do papel produz um resultado inesperadamente claro, mais conciso, mais elegante, talvez mais preciso e até mais completo que nossa intenção intima
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Incompreensões
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Todo autor luta a vida inteira contra a incompreensão dos leitores — na realidade, contra sua compreensão, eivada de resistências —, mas luta também contra a própria obra, tentando transmitir sua capacidade de pensar. Não a magnitude, grande ou pequena, mas sua máquina, seu processo, sua forma ativa.
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E perde. Inexoravelmente. O atrito com a palavra, com o papel, com as resistências e com a tendência de as ferramentas de comunicação tomarem o lugar da máquina de pensar e se organizarem espontaneamente como um sistema de pensamento, acaba invariavelmente por criar um autor-personagem, não intencional — um pensador, como se diria um narrador, caso se tratasse de romance —, que é mais propriedade da obra e de sua leitura, que do homem que escreveu.
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Bem avisados disso, os pensadores psicanalíticos, Freud à frente de todos, cônscios ademais dos efeitos de transferência de sua figura e de sua obra, procuram antecipar-se ao inevitável, criando eles próprios a personagem mais apropriada e variantes internas da própria obra capazes de transmitir um aparelho suficiente de pensar que, mesmo não sendo com precisão aquele de que se valem, é o bastante, no mínimo, para impedir que seu pensamento seja radicalmente deturpado, e, na melhor das hipóteses, para garantir o que se poderia chamar de uma continuidade heurística.
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Entendimento
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Então, começa a luta do leitor com a obra e contra a obra. Que deseja o leitor? Entender. Mas o que significa entender? Depende do gênero de obra e do espírito do tempo. A intelecção de um poema é só a condição primeira para seu desfrute estético, por isso a palavra intelecção, embora justificável, soa algo forçada aqui. Já a intelecção de uma teoria cientifica, de um teorema da geometria, de um texto de historia ou de filosofia, sendo também o umbral do gozo estético, é, e quase sempre o foi, condição de uso. Acrescento algo a mim, aproprio-me. Este segundo sentido, a posse e o poder de utilizar, sempre esteve presente na leitura.
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A leitura e interpretação dos livros sagrados, por exemplo, outorgou sempre a condição de assenhorear-se de algum poder sobre o outro, trazendo em resposta a tentativa de leitura pessoal, revoltosa, associada regularmente a uma loucura, interpretação demasiado particular do mundo. Nalgum momento do século XIX, o imperativo da utilização do conhecimento começou a suplantar as demais funções.
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Hoje, talvez nos pareça um pouco ridículo imaginar que noutros tempos o conhecimento fosse outra coisa, senão uma utilidade, mas já foi assim e, creio, não estamos muito distantes de nova virada, quando o conhecimento pessoal deixará talvez de ser utilizável. Para que se dê a apropriação e utilização do conhecimento, porém, é preciso primeiro objetivá-lo: isto que significa tal texto, agora sou dono dele, posso combiná-lo com este outro a meu gosto, sou seu senhor, sendo seu escravo, por consequencia. E aí está o começo da guerra com a obra: entender é objetivar.
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Este mandato de devoração das obras, a propósito, pode ter sido uma das alavancas consideradas por Joyce. Ele escreveu livros impossíveis de objetivar e incorporar como propriedade, de usar e recombinar com alguma garantia. Ulisses parece desafiar-nos com o desafio da Esfinge – decifra-me ou devoro-te —, mas, de onde vem seu poder de nos devorar, uma vez que decifrá-lo é mesmo impossível? Simples, de nosso mandato interior. É duvidoso, aliás, que a Esfinge fosse mesmo capaz de devorar alguém, não se citam muitos casos em que isso ocorresse, pelo menos.
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Em todo caso, o Ulisses não tem como comer ninguém, mas o despeito de não o conseguir objetivar, sim. Devora-me, ou morda-se de raiva seria mais apropriado ao caso. Numa época de utilização, em que o critico literário e o scholar universitário tem de objetivar rapidamente tudo o que lhes cai na mão, e em que o leitor já recebe precisamente a lista do que ler e o sentido a encontrar, um livro não-objetivável pode ser um dos poucos estímulos eficazes, algo assim como um instante de silencio numa discoteca. Enquanto o leitor procura reduzir o autor a mera pessoa, com motivos compreensíveis, este ultimo deseja fertilizá-lo com seu método de pensamento, não com uma doutrina ou uma personagem. A esta luta constante pela objetivação típica da escrita podemos denominar o atrito do papel.
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Cisma do leitor
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Perto dos 60 anos, Freud exibe em sua obra indícios fortes de que desconfiava das intenções dos leitores. Como grande escritor, não desconhecia o atrativo do enigma, embora não sentisse necessidade de utilizá-lo como instrumento fundamental. Reconhecia e respeitava o torturante atrito do papel e não ignorava que seus leitores, que devia transformar em seguidores do caminho aberto por ele, para garantir alguma continuidade heurística, desejariam antes de tudo objetivá-lo e apropriar-se dos despojos.
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Assim, sua obra, sem ser inabarável, envolve diferentes graus de dificuldade e, sobretudo, circunscreve variantes teóricas e constelações parciais de conceitos, de forma a propiciar atos progressivos de intelecção, cada qual levando a uma apropriação gradual por parte do leitor e o tentando a nova empreitada. Destarte, a luta contra a obra pode converter-se, pela intensidade gradual da resistência que acompanha cada tentativa de apropriação, numa luta com a obra, junto com a obra, que produz adesão, mas não sacia completamente o desejo de posse.
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Comecemos pelo mais simples e evidente. Encontram-se grupos de disposições na obra freudiana. A mais óbvia é a de que é preciso aceitar tais ou quais teorias para ser analista: a sexualidade infantil, o inconsciente, a transferência, num exemplo, descarado por excelência. Ou, que não é forçoso aceitar o instinto de morte, o que faz saltar aos olhos que tudo o mais tem de ser aceito. Ou que o analista deve abster-se de relações amorosas com seus pacientes. Ou que se deve submeter à análise.
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Quase se pode escutar o leitor de Freud replicando, com toda a justiça: quem é você para ordenar o que posso e o que não posso fazer? Quem diz que eu quero ser analista, essa profissão ainda inexistente, para fins práticos, estatísticos e pecuniários? Porém, se me proíbe, vou ser assim mesmo, e desobedecendo-o, se quer saber. Esta pode ter sido a primeira batalha da resistência e a vitória, por nocaute, foi de Freud, evidentemente. Uma profissão imaginaria ganhou um adepto rebelde. A rebeldia virá a ser domesticado a seu tempo, coisa de somenos, mas a adição já se estabeleceu. Funciona até hoje, quando a profissão já existe. As pessoas chegam à prática analítica, na maioria dos casos, por algum caminho lateral, que combina adesão com rebeldia, uma terapia mais flexível, uma formação menos exigente.
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Invenção
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Num grau maior de complexidade, a invenção do complicadíssimo e verdadeiramente inacreditável movimento psicanalítico entra também na categoria de disposições da obra de Freud. Parte dessa rocambolesca ficção, com mais peripécias que enredo e mais ritos que razões, foi inventada depois, ou à margem da obra freudiana, mas, é bom frisar, sob sua inspiração. Freud, ele mesmo, como diria Fernando Pessoa, não parecia disposto a criar Institutos de Formação, pelo menos de inicio. Mas deve ter percebido que certo espírito ritualístico de sua ficção fora mais bem compreendido pelos berlinenses que por ele próprio.
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No que tange à prática, à formação, a certos pontos da técnica e até à criação do movimento psicanalíticos. Freud empregou o recurso nada sutil da disposição. Na disposição, diz-se diretamente o que se quer que os outros façam. A questão é de ser obedecido, lógico. Há dois tipos de disposição que se acata. A disposição testamentária e a disposição legal.
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Neste ponto exato, começa nossa inquirição sobre o Freud fora da Psicanálise. Ele criou duas ficções exemplares e altamente convincentes de seu direito a dispor. A primeira é a do pai da borda primitiva que, morto, tem todo o direito de exigir obediência a seus últimos desejos. O conto sobre a origem da cultura estava fundamente entranhado na vida de Freud que sempre deu sinais de estar morrendo, mesmo sem o aval dos médicos. O pai da hora, este foi um papel bem integrado na vida de Freud, como em sua obra.
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No entanto, se o grande pai legou a lei, não chegou a legislar. O outro, o de legislador, fica evidente na obra sobre que esteve sempre a meditar, sem animo de publicação: Moisés e o Monoteísmo (1934-1939). Freud encarna Moisés, reclamando para si o direito de mando, de outorga de leis. A figura do profeta irado com os desvios de seu povo, que ama, mas deve proteger contra o pecado da idolatria com regras estritas, reforça a do pai morto, sacrificado. Suas disposições, a legislação da pratica analítica, da formação, da organização do movimento, mercê desse peculiar circuito de Freud pelo análogo, ganham foros de fundamento antropológico e de revelação profética, ao mesmo tempo. E, além do mais, um poderoso efeito de sugestão emocional, que, para alguns, chega a confundir-se com transferência.
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O legado da Psicanálise
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É preciso agora refletir um instante sobre a matéria, objeto das disposições. Não se trata aqui de apontar os absurdos do movimento psicanalítico, a transformação de certos hábitos em rituais, do ritual em setting (moldura) e do setting em parâmetros e standarts. O legado, disposto e assegurado, é a psicanálise que existe e praticamos, no modo da formação, no do movimento e no da clinica.
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Não resta duvida de que Freud queria passar adiante alguma coisa, que foi tomando a forma atual. A questão é: praticava Freud exatamente isto? Não parece, pelo que se sabe, mas também não se sabe com certeza. Seus historiais clínicos não tem a forma de relatórios, mas de relatos bem urdidos, em que a descrições de sessões cumpre o papel de decifrar para o leitor o sentido dos sintomas; é difícil dizer se Freud, mesmo quando diz estar falando com o paciente, não está escrevendo para nós, antes de mais nada. Este é um recurso literário extremamente usual, a narrativa indireta por meios de diálogos, e o reverso, a narrativa que subsume e sugere uma interlocução.
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Como instrumento de comunicação clinica, não surgiu depois nada melhor. A impressão que tenho, mas que não passa de impressão, é que o atendimento dos casos não deveria estar muito distante de uma longa anamnese associativa, combinada com tentativas graduais de construção teórica hipotético-sugestiva. O transito pelo análogo, através de tais construções – que correspondiam com certeza à criação das próprias teorias originais -, deveria ser muito mais freqüente que é hoje e a procura de sinais de confirmação ou refutação, mais ativa. Pode ser, pode não ser, mas não se consegue reconhecer uma diferença essencial com aquela transmitida. O indiscutível, porém, é que a clinica de Freud constituía, em essência, a própria descoberta da Psicanálise. Freud nunca integrou, aliás, o movimento psicanalítico, senão como fundador, nunca fez formação, não foi analisado. Há um detalhe comum às duas ficções, a da Horda primitiva e a de Moisés, que não lhes deve haver passado despercebido: o Grande Pai não fazia parte da horda fraterna e Moisés era egípcio. Se, por definição, psicanalítica é quem pratica a psicanálise, Freud nunca foi psicanalista, ele era a invenção da psicanálise, Freud era a Psicanálise.
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Pensador por escrito
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A psicanálise teórico-clínica é o produto objetivado do pensamento freudiano. Tal produto, para empregar um termo bem em moda, constitui a interface de dois processos de objetivação. O pensador por escrito esforçasse por transmitir seu pensamento, sua maquina criativa. Para tanto, necessita invariavelmente objetivá-lo em exemplos, conceitos, estruturas gerais. Não há como passar adiante uma forma sem conteúdos circunstanciais. Decorre dessa injunção que chamemos pensamento, por simplicidade, não a máquina produtora, mas ao conjunto de seus produtos.
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O leitor, no afã de o entender, objetiva-o por seu lado. Seleciona os produtos que lhes parecem mais significativos e deles deduz certas formas gerais, tentando abstrair o secundário e reter o essencial. O leitor de Freud, porém, é uma comunidade em trabalho de formação. Certos precipitados consagram-se e já não podemos deles escapar. O autor objetiva, a leitura objetiva; desse duplo atrito do papel — que ler é mais ou menos como escrever sob esse aspecto —, cria-se um simulacro, o mais nobre dos simulacros, o mais terrível dos simulacros: a doutrina.
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A doutrina freudiana é a psicanálise, a teoria, a clinica, (mas não a Psicanálise, a ciência do psique). Reúne certas constelações que, claramente, foram escolhidas por Freud, e exclui outras que também foram escolhidas. A psicanálise inclui a pratica psicanalítica padrão, mas exclui, por exemplo, a psicanálise do pequeno Hans e a de Schereber. Inclui o movimento psicanalítico e a formação analítica, mas exclui a auto-análise e as ficções freudianas. Inclui a Traumdeutung, mas exclui a interpretação dos sonhos: qual foi a ultima vez que vocês viram algum analista publicar uma serie de sonhos próprios, interpretados pelo procedimento associativo freudiano, para corroborar ou infirmar a existência dos processos oníricos, ou para sugerir um procedimento interpretativo melhor? Freud, o interprete dos sonhos, está à margem da psicanálise estabelecida, onde só ficou o produto objetivado. Praticamente todo o ato freudiano foi excluído da psicanálise, que guardou, avara, apenas o produto objetivado do ato. Se Freud é a Psicanálise, a psicanálise, de certo modo, é o contrário da Psicanálise. Por outro lado, é tudo o que temos, o mais nobre, o mais terrível dos simulacros.
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O análogo
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Para prosseguir nossa investigação sobre a operação do análogo em Freud, constatada sua exclusão da psicanálise — exclusão da qual ao super exclusões de Freud, peculiares a certas escolas, Sociedades ou grupos, não constituem senão desdobramentos episódicos -, pode ser útil voltar nossa atenção ao Moises e o Monoteísmo. A hesitação em publicá-lo e a dificuldade para o escrever não solicitam uma interpretação selvagem do inconsciente de Freud.
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Parte da luta do leitor psicanalítico contra a obra freudiana consiste precisamente em lhe atribuir inconsciente. Não falo apenas da interpretação caricatural, caso do biografismo inconsciente a partir da obra e de seu anedotário, o que suponho já tenha caído em desuso, mas também das tentativas, às vezes pueris, às vezes argutas, de nela encontrar um sentido desconhecido para o autor.
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Como escritor, sei muito bem que as obras tem dezenas de camadas superpostas, e mesmo a dedução mais sutil de um sentido inconsciente, seja um motivo inconsciente, verbo horrendo, seja um plano de sentido desconhecido, na maioria das vezes só desemboca numa das estruturas arquitetônicas mais ou menos disfarçada pelo autor. É relativamente fácil descobrir o inconsciente de uma historia em quadrinhos ou daquela pobre Gradiva, mas impossível encontrá-lo em Dostoievski, em Joyce, ou em Freud.
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Moisés
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A questão suscitada pelo Moisés nada tem de inconsciente, mas de prudência. Freud deixa claro que temia mostrar-se um ficcionista, vale dizer, de ser excluído do reino cientifico, é claro, mas, sobretudo, de expor em demasia seu processo de criação. E como é esse processo? Ele propõe uma sugestão criativa, uma pseudo-hipótese — ser Moisés egípcio. Não consegue prová-la, mas no vai-e-vem do processo argumentativo fica aparente que sua sugestão é tão plausível como a de que se consagrou, a de ser Moisés um judeu, o que abala o edifício inteiro dessa crença. Deus já não é um, mas uma combinação de Deus com um deus vulcânico, nem é um o povo eleito – eleito por quem? O Moisés egípcio, como interpretante, tem de ser tão possível quanto o Moisés do campo da religião e tem de ser sustentado com o mesmo vigor com o qual se sustentaria qualquer outra fala interpretativa. Sua verdade, porém, consiste no efeito produzido, não nos fatos; este, o parentesco com a ficção. Costumo chamar a este processo de ruptura de campo, como sabem.
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Freud criou vários tipos de ficção como essa, vários exemplos objetivados de sua forma de pensar. Os graus de veracidade são variáveis, naturalmente; mas o efeito geral parece, em essência, semelhante. Sua hipótese sobre a sexualidade infantil transforma um tanto a idéia que se tinha da infância; porém, põe de pernas para o ar a noção que se tinha de sexualidade. Este foi o campo rompido, o verdadeiro alvo da interpretação. A teoria das neuroses serviu ao tratamento, certo, mas seu efeito devastador, em nossa cultura, foi a de estilhaçar a distinção cortante entre normalidade e neurose. A teoria geral de aparelho psíquico, a metapsicologia, propôs um modelo das funções mentais bem superior aos demais, de que foi tão fértil sua época, verdade; seu efeito interpretativo, contudo, fez-se sentir sobre a crença sedimentada na unidade e transparência do sujeito. O complexo de Édipo, mais que postular o antagonismo ambivalente de filhos e pais, serviu para romper o isolamento teórico entre indivíduo e cultura. Decerto, a noção de transferência serve muito bem à cura analítica, mas, acima de tudo, rompe o campo tradicional do sentido da palavra.
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Os historiais clínicos de Freud não tem a forma de relatórios, mas de relatos bem urdidos, nos quais decifra para o leitor o sentido dos sintomas; é difícil dizer se Freud, mesmo quando diz falar com o paciente, não está escrevendo para nós
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Repetição
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Como foi que as ficções freudianas perderam a gravidade e se tornaram meramente sérias? Pela repetição. Napoleão teria dito que a única figura de retórica séria é a repetição, e estava certo, mais certo do que podia então imaginar. Não só é séria a repetição, como repetitiva, a seriedade. Se cada vez que dissesse Édipo ou Metapsicologia o analista tivesse de pagar royalties, o fundo de pensão dos pensadores anônimos estaria garantido.
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O complexo de Édipo pode ser entendido como um gracioso convite interpretativo a que se usem os milhares de personagens, das centenas de mitologias, para reinventar o homem, esse ser que se objetiva e retifica a cada volta do parafuso teórico — o novo esmagador de polegares.
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A Metapsicologia comporta uma pilhéria com a Metafísica de Aristóteles, assim conhecida por vir depois do livro da Física, mas que já é evidentemente ciência do espírito; ou seja, metafísica = psicologia. Em consequencia, o titulo metapsicologia poderia ser traduzido como meta-metafísica, enquanto seu conteúdo, por dupla negação, aproxima-se ao de uma física da psique: quantidades, forças, estruturas, movimento: um aparelho.
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A Metapsicologia é, portanto, um jogo de armar, que permite todas as recombinações internas imagináveis, além de ser um convite a que se criem outros jogos semelhantes. Essa é uma atividade perfeitamente legitima, desde que se reconheça que seu objeto é imaginário, a máquina da alma. E que, por favor, se evite chamar também às montagens próprias de metapsicologias, o que, convenhamos, seria de um mau gosto arroz. Convertidas as teorias em moda, prestam-se ao pedantismo denunciado por Mallarmé em Poesia para Todos, onde qualquer um pode dizer: para mim, o importante é o après-coup, para mim, toda interpretação é edipiana, ou metapsicológica, ou transferencial, para mim…
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Joio da moda
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Desde pelo menos As rãs, de Aristófanes, desde o Satiricon, de Petrônio, o espírito humano nunca deixou de apor o carinho de seu risinho irônico sobre a seriedade descabida com que as novidades do pensamento se esparramam, como um selo de garantia da possibilidade de pensar — só um sorriso separa o joio da moda, do trigo com que se fabrica o pão do conhecimento. Joyce, numa época em que as interpretações já começavam a suplantar em popularidade as teorias cientificas, fez a tradição irônica escalar a montanha da vida quotidiana até o topo.
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Falta à psicanálise, porventura, o que não faltava ao pensamento freudiano, em Mulligan, o daimon irônico de Stephen Dedalus, ou melhor, seu therapon, a insuflar as contradições entre sentimentos e intelecto e a levar ao ridículo a pretensiosa certeza das referencias teóricas. Hoje, talvez não seja ainda demasiado tarde para transformar a ironia em método entre nós analistas, a meia voz, enquanto a oficialidade séria se distrai a brincar de Titanic na banheira.
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Concluindo. Esta dimensão da máquina de pensar de Freud, a ironia em método — modelo de objeto imaginário que aqui ao se mostrou fugazmente, quando interpretamos suas constelações teóricas usando o Moises como interpretante —, integra-se perfeitamente à Psicanálise, mas fica quase sempre de fora das psicanálises, mesmo daquela que nos legou.

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