Artigos periódicos: “Inconsciente e linguagem”

Inconsciente e linguagem
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De realidade submersa à estruturação lingüística, os desdobramentos do conceito de inconsciente desenvolvido pela psicanálise
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Por Laéria Fontenele
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Bem antes da descoberta de que o nosso aparelho psíquico não se reduzia à consciência, pela revelação da existência de outra instancia a que chamou de inconsciente, Freud já tinha constatado o poder curativo da fala, por isso fez dela um instrumento privilegiado para o tratamento dos sintomas neuróticos. Falar dos conflitos promotores de sofrimento, para descobrir os caminhos por que buscam expressar-se, construindo-lhes o sentido, eis o que vem a significar inicialmente a “técnica de cura pela palavra”, que daria origem a todas as psicoterapias modernas, de uma forma geral, e à psicanálise, em particular.Enquanto as psicoterapias permaneceriam fundadas na fala em sua relação com a consciência, a psicanálise surgiria de uma nova forma de conceber o dizer e do modo como se daria a sua esposa. Freud constatou, a partir da sua experiência clinica para com os neuróticos, o fato de que, quando falamos, dizemos mais do que pensamos dizer. Existem no que dizemos um sentido manifesto e um sentido latente, ou seja, nas entrelinhas do que falamos insiste um sentido Outro, indicando a existência em nós de um sabor estranho e familiar ao mesmo tempo.
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Da mesma forma, pôde constatar que os sintomas psíquicos admitem essa mesma lógica; são eles dotados de um sentido que está para além do manifesto, sendo o sentido latente da ordem do absolutamente particular. Sintoma e linguagem estão articulados, na medida em que os sintomas são dotados de sentido. A partir dessas formas diferentes de comparecimento do sentido, Freud pôde demonstrar e comprovar a existência da instância inconsciente.
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O inconsciente é o que dizemos
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O inconsciente não seria, portanto, uma realidade submersa, ou uma camada mais profunda do que a da consciência. Ao contrário, sua realidade se mostra não apenas em nossos sonhos e sintomas, mas em nossa fala; portanto, também se manifesta na superfície. Não sem propósito, o psicanalista Jacques Lacan, muito depois, daria uma definição precisa e curta do que é o inconsciente a partir de Freud: o inconsciente é o que dizemos. Antes de Freud, a concepção dessa camada mais profunda do que a consciência era denominada de subconsciência; portanto, não tinha o sentido de uma instancia psíquica distinta da consciência e regida por leis próprias.
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Quando Freud procurou legitimar a descoberta do inconsciente, ele o fez justamente se referindo a experiências presentes em nosso cotidiano banal, em que o inconsciente se mostra, quais sejam: o relato que fazemos de nossos sonhos; os atos falhos que cometemos, quando, por exemplo, trocamos uma palavra por outra em nossa fala ou em nossa escrita; o riso que provoca em alguém uma piada que contamos; o esquecimento de um nome próprio ou de algum outro.
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Em tudo isso, já se depreendia o fato de que as experiências que fundam a realidade psíquica dos seres humanos não podem ser compreendidas sem considerar o lugar que tem a linguagem em sua constituição. Ao mesmo tempo, observa-se que o inconsciente freudiano não é imaterial e que sua materialidade é de acordo com a da linguagem.
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Quando falamos, dizemos mais do que pensamos dizer. Existem, no que dizemos, um sentido manifesto e um sentido latente, ou seja, nas entrelinhas do que falamos insiste um sentido Outro, indicando a existência de um saber estranho e familiar
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O inconsciente não é linguagem
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Em sua forma de recepção da psicanálise, observa-se que nossa cultura, ao agregá-la aos seus demais bens e propagá-la, o tem feito aos seus demais bens e propagá-la, o tem feito a partir da deformação de seus princípios norteadores. A associação entre o inconsciente e a linguagem nela transmitida, normalmente, consiste em conceber o inconsciente como sendo uma linguagem.
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Tornando-a por enigmática e simbólica, espera-se do psicanalista a sua interpretação compreensiva, ou seja: espera-se que seja dado um sentido ao caráter bizarro e absurdo que é atribuído à linguagem inconsciente como portadora de um simbolismo que lhe seria próprio. Imagina-se ser o psicanalista dotado do poder de decodificar esses símbolos para os seus pacientes, explicando-lhes assim a linguagem do inconsciente.
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Essa forma de simbolismo em muito difere e se afasta da noção de simbólico, consoante Freud. Para este, o símbolo não admite fechamento e, sim, abertura, pois existe um limite para a simbolização. Isso quer dizer que nem tudo pode ser simbolizado. A esse limite ele se refere metaforicamente como “umbigo dos sonhos”, denotando, com isso, a tarefa infinita da interpretação analítica. Além do que, o processo de simbolização – enquanto construtor de sentidos – é entendido como sendo o fruto de um trabalho para com as idéias presentes no psiquismo, o que se dá de forma diferente nas instancias conscientes e inconscientes; ou seja, para Freud, a simbolização não é a manifestação de símbolos que traríamos guardados em nosso inconsciente.
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Baú de efeitos
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O inconsciente não é um baú de símbolos e nem o porão da consciência, mas, sim, umas instancia que trabalha em nós e em nós produz seus efeitos. Como exemplo disso, pode-se dizer que, para a consciência, um charuto só pode ser um charuto. Sua lógica de funcionamento não admite que possamos conceber que o charuto seja um guarda-chuva, pois existe uma incompatibilidade entre essas idéias. Da mesma forma, Pedro não pode dizer que é Napoleão Bonaparte, pois, se assim o fizesse, seria considerado louco; e o que é um sujeito, a quem se costuma chamar de louco, senão aquele que atesta a forma de o inconsciente se manifestar? Por sua vez, do ponto de vista do trabalho inconsciente, uma idéia pode associar-se a uma outra, transferindo-lhe a sua carga representacional, de modo que se pode sonhar que um charuto é um guarda-chuva, pois não há contradição, nem negação, nem tempo na lógica inconsciente. Nas suas manifestações diretas, como, por exemplo, nas crises psicóticas, observa-se isso com clareza: tanto Pedro pode ser Napoleão, como Jesus Cristo, ou o que quer que a lógica delirante convoque como forma de arranjos de sentidos.
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Há inconsciente porque há linguagem
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A relação entre inconsciente e linguagem foi o ponto central do retorno a Freud, empreendido por Jacques Lacan. Tal retorno consistiu, sobretudo, na denuncia de que, após a morte de seu criador, observava-se toda sorte de desvios da prática psicanalítica em relação ao seu sentido original e aos seus fundamentos de base. Com isso, Lacan dará ênfase à importância da linguagem enquanto responsável pelo acesso do homem ao simbólico, possibilidade pela qual poderá conferir ao mundo um universo de significações.
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A linguagem teria para o homem a mesma função que tem uma ponte a ligar dois pontos separados por um abismo. Haveria uma falha constitutiva a separar o homem do mundo e a ela a linguagem seria responsável por tentar superar. Dessa forma, compreende-se a linguagem como fundadores da realidade do inconsciente. Não há inconsciente onde não existe esse distanciamento, por isso nos animais não se fazem presentes as instancias inconsciente e consciente, tampouco linguagem no sentido aqui empregado.
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Os animais, em seu habitat natural, não se encontram apartados do mundo: a este estão integrados de forma natural e harmônica. Portanto, a existência do inconsciente e os efeitos que produzem no animal humano são solidários do fato de que existe a linguagem. A constituição da realidade inconsciente é resultado da pertença do homem à cultura, que é o artifício de sua própria intervenção e transformação do mundo natural.
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Como uma linguagem
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Quando nasce um bebê, já existe um mundo simbólico constituído, que lhe é anterior e a que esse pequeno ser ainda não tem acesso. Só sua entrada no mundo da linguagem fará com que ele possa partilhar dos sentidos circulantes em seu mundo circundante. A aquisição da fala, a possibilidade de apropriar-se da língua como possibilidade de dar sentido ao que, para esse infante, não tem sentido algum, será solidário do modo como se dará a estruturação de seu aparelho psíquico.
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Dizendo isso reportamo-nos ao aforismo, já bem conhecido, de Jacques Lacan, segundo o qual, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Da mesma forma que a linguagem está submetida a leis que regulam sua construção e funcionamento, também com o inconsciente ocorre algo da mesma ordem. O inconsciente não é um fora-da-lei; nele vigora uma lei que rege o seu funcionamento. A esta lei Freud denominou de processo primário; e, como fruto de sua ação, duas são as formas resultantes do tratamento que pode ser conferido às idéias inconscientes: a condensação e o deslocamento. A essas, em seu dialogo com a lingüística, Jacques Lacan denominou de metáfora e metonímia.
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Tornando a linguagem de seus pacientes por enigmática e simbólica, espera-se do psicanalista que seja dado um sentido ao caráter bizarro e absurdo que é atribuído à linguagem inconsciente como portadora de um simbolismo que lhe seria próprio
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Experiência com o sentido
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A relação do inconsciente com a linguagem, do ponto de vista psicanalítico, é resultante da experiência do sujeito para com o sentido. Como observamos antes, ao nos reportarmos ao recém-nascido, no inicio da imersão do homem no mundo, está a experiência para com o sentido e que é da ordem do irrepresentável.
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Tornar-se um sujeito humano é conferir sentidos ao que é deles desprovido. Que sentido tem a vida? Existirmos ao que isso se destina? Por que existem seres diferentes? Qual o sentido da morte? Todas são perguntas a que somos convocados como sujeitos a responder, e, diferentes, complementares ou incompatíveis podem ser as respostas que a elas damos.
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O sentido é da ordem do amor, do que nos convoca a vida. Se a vida não adquire sentidos ou se os perde, resta a pergunta sobre o seu valor e afirmação da morte sobre ela. Significar é uma operação artificial, responsável por organizar o imaginário humano, e indica ser o sentido fruto de uma construção significante. Mas por meio de que se dá essa construção? Por meio da nomeação do inominável.
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Alíngua
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Segundo Lacan, o sentido surge no entrecruzamento dos registros do imaginário e do simbólico. No entanto, no entrecruzamento desses registros como o do real, um resto resiste à significação. Ou seja, sendo a linguagem uma ponte sobre o abismo aberto entre o homem e o mundo, como transpô-lo, garantindo-lhe a verdade, senão com a insistência de seu impossível? Sempre permanecerá algo por se dizer, faltam palavras.
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A isso Lacan deu o nome de alíngua. A concepção de alíngua preserva e transmite uma verdade, a de que em nossa fala sempre falta algo por se dizer. Faltam palavras. Em Freud, o mesmo pode ser entendido, pois a articulação entre a palavra e a Coisa, a que busca nomear, será efetuada somente na realidade consciente. Do ponto de vista do inconsciente se efetua, apenas, o registro da Coisa por meio dos traços perceptivos por ela deixados e não pela experiência perceptual dela mesma.
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Existe, portanto, na realidade inconsciente, a prova de que há uma falha na possibilidade de representar sem equivocidade o mundo que se nos apresenta. A experiência do sujeito com a linguagem é marcada pelo equivoco como potencialidade. É devido aos espaços que a falta de sentido inscreve que a linguagem adquire o seu potencial polissêmico e a sua virtualidade de dizer mais ou menos do que o que é dito.
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Esse modo de inscrição faltosa do real é solidário do que Freud denominou de realidade psíquica, a qual é marcada, em sua constituição, pelas fantasias infantis. Ficção criada pelo imaginário infantil, a fantasia serve para explicar o que se lhes apresenta como traumático porque sem sentido. Para cada sujeito, dessa forma, a realidade concreta só se faz presente pela mediação da realidade psíquica, que será marcada pela singularidade de sua relação com o significante.
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Psicanálise e lingüística
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A forma de conceber a linguagem, no entendimento que dela fará Lacan, em referencia a Freud, não é a mesma que tem dela os lingüistas. Como muito bem expõe Nadiá Paulo Ferreira, Jacques Lacan dela se apropria, bem como de outros conceitos da lingüística estrutural, subvertendo-os. Ou seja: Lacan dá aos conceitos da lingüística um significado a partir da indicação de Freud ao tomar os sonhos como um texto. O significante, na versão de Lacan, remete sempre a outro significante, em cujo intervalo se localiza o sujeito. A idéia é de que o significante representa o sujeito do inconsciente para outro significante, sendo que o sujeito não se apresenta na própria cadeia significante – ou discurso manifesto para Freud – e, sim, nos intervalos dessa cadeia – sentido latente para Freud.
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Na constituição da relação do sujeito ao sentido, podemos observar que sua direção remete ao processo ao Freud denominou recalque. O processo de recalcamento é um destino assumido pela pulsão, que, impossibilitada de se satisfazer, ou pelo incomodo que causaria sua satisfação, afasta a idéia da consciência, mantendo-a à distancia da parte de que era integrante. O que é recalcado originalmente, na leitura de Lacan, é um significante primordial, que é fixado por um significante posterior e referente ao recalque secundário. O significante primordial confina com o sem sentido, só vindo a participar do processo de significação engendrado por uma cadeia significante através de seus retornos por meio de outros significantes a ele associados. Dessa forma, o significante não admite em si nenhuma significação, ele é o que insiste na significação e não consiste nela.
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O seu efeito de sentido se dá de forma retroativa e não progressiva na cadeia significante. Devido ao furo que marca a própria constituição da linguagem, Lacan indica que sempre haverá, no processo de significação do desejo inconsciente, o lugar para um novo significante. Mas isso não quer dizer que ele, o desejo, esteja aberto a qualquer interpretação.
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Significantes recalcados
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Na produção do significado está a marca da realidade inconsciente e do trabalho que aí se realiza em torno dos significantes recalcados e que buscam retornar para realizar o desejo. O sintoma nada mais é do que a realização deformada desse desejo, que, impossibilitado de comparecer de forma direta, aparece sob o efeito metonímico ou metafórico de forma figurada e disfarçada. O que isso quer dizer?
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A metonímia, ou deslocamento, para Freud, é uma forma de construção do sentido que se dá a partir da redução do valor psíquico que tem um significante para um sujeito. Um significante de menor valor psíquico por efeito de substituição se apresenta no lugar de outro valor psíquico. Um sujeito diz, por exemplo, ter sonhado estar beijando uma bela mulher que parecia sua mãe, mas que não era ela. Ou seja, para que essa idéia pudesse ser admitida pela consciência, a mulher a quem beijava vem a substituir sua mãe, pois ele não pode admitir o desejo por essa, dado a sua incompatibilidade para com o pensamento consciente e o desprazer que seria capaz de despertar.
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Na metáfora, ou condensação, para Freud, o processo de figuração do sentido se dá por um acréscimo do valor psíquico de um significante a partir de uma relação de contigüidade com outro significante. Um significante substitui outro significante e passa a ocupar o seu lugar na cadeia significante; com isso se dá o aparecimento de um novo significado. Exemplo jocoso disso encontra-se no relato clinico do homem dos ratos, no qual é mencionado o episodio em que ele, quando menino, e tomado de enorme fúria, assim se dirigiu ao seu pai, em tom de injúria: “seu lâmpada, seu guardanapo, seu assento”. Não precisamos explicar o sentido como assumido pelas palavras de objetos por ele utilizadas para definir o seu pai.
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Em ambos os casos, o processo de significação é um efeito do modo de intervenção, por similaridade ou contigüidade, do processo primário na cadeia significante. Mas, diferentemente da lingüística, o valor psíquico do significante é pensado a partir da singularidade do sujeito, de sua verdade recalcada. A constituição dos sentidos não está, do ponto de vista inconsciente, referenciada ao código lingüístico e, sim, ao sujeito.
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A linguagem teria para o homem a mesma função que uma ponte a ligar dois pontos separados por um abismo. Haveria uma falha constitutiva a separar o homem do mundo e a ela a linguagem seria responsável por tentar superar
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Reich e Jung
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A mesma razão fez com que Wilhelm Reich e Carl Gustav Jung, se afastassem da doutrina freudiana e retornassem para os braços da psicologia que lhe era anterior: a recusa do conceito de pulsão de morte formulado por Freud a partir de 1920. Antes, no entanto, já se observava quão dissonantes estavam os mesmos em relação ao conceito revolucionário de sexualidade psíquica fundado por este. No entanto, justamente nesse ponto os dois deixaram de lado os aspectos materiais que estão em jogo no inconsciente freudiano em sua relação com a linguagem e retroagiram, agora por caminhos diferentes, em direção a uma concepção pré-freudiana de inconsciente.
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Jung, por adotar uma concepção de símbolo pré-moderna, voltará a conceber o psiquismo como tendo estratos mais profundos ou superficiais; e o conceito de arquétipo o conduzirá a uma concepção de inconsciente que em nada se aproxima do sentido dado a ele por Freud. A concepção de inconsciente e linguagem para Jung é mais psicológica do que psicanalítica, e marcada pela construção de uma concepção simbólica e por uma concepção de acesse subjetiva inconcebível para os psicanalíticas contemporâneos que procuram reafirmar a verdade freudiana. Para Jung, o símbolo tem caráter fechado e não aberto. Jung recusa reconhecer a desnaturalização provocada no homem pela linguagem.
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Reich, por retornar a uma concepção de sexualidade genital e não psíquica, verá no inconsciente as marcas de uma sexualidade reprimida, ou seja, impedida quanto ao livre fluxo da libido. A impotência orgástica e a rigidez do funcionamento das defesas, não se restringindo à esfera psíquica, fariam, também, sua incidência no corpo sob a forma de couraças musculares; estas, as responsáveis pela peste emocional a que estariam acometidos os seres humanos por sua alienação social e psíquica. Desloca, então, para o corpo a sua ênfase, passando, progressivamente, inclusive, a deixar de lado, em nome de outras técnicas ativas, o lugar central da palavra no tratamento psíquico. De acordo com isso, a linguagem deixa de ter o sentido de uma estrutura e a palavra dá lugar à ação e não à produção de um saber não sabido.
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Laéria Fontanele é professora doutora da pós-graduação e da graduação em psicologia da UFC, além de diretora do Corpo Freudiano – Seção Fortaleza.

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