Artigos periódicos: “A fragmentação dos cursos psicanalíticos”

A fragmentação dos cursos psicanalíticos
*
*
*
PULVERIZAÇÃO DE CORRENTES PSICANALÍTICAS FAZ COM QUE CADA UMA REPRESENTE APENAS UMA ESFERA DE ABORDAGEM DO PENSAMENTO DE FREUD
*
*
*
Por Fabio Herrmann
*
*
*
Para começo de conversa, existe a teoria psicanalítica? A resposta pode ser um enfático “sim”, um desconsolado “não” ou um cauteloso “depende”. Tal pergunta, quando feita entre analistas, costuma argüir apenas a unidade de nossa disciplina. Confundindo teoria com correntes doutrinarias, pergunta-se se as escolas são ou não são a mesma psicanálise.
* Serão incomensuráveis as diferentes teorias psicanalíticas? Se se tivessem sucedido tantos paradigmas quantas foram as correntes psicanalíticas, no exíguo século de existência da disciplina, não se trataria da revolução, mas de pronunciamentos, como nas boas e velhas “repúblicas das bananas”.
*
Para nós, agora, a questão é outra: teorias são setores do nosso conhecimento, como teoria da angústia, teoria da transferência, teoria do trauma, teoria dos instintos e não demarcações de propriedade territorial, como teoria kleiniana, lacaniana etc. O que desejamos saber com a pergunta inicial é se aquilo que se costuma chamar de teoria, na Psicanálise, o é de fato e sob que condições.
*
*
*
HÁ TEORIA PSICANALÍTICA?
*
*
*
Um enfático “sim”!
*
*
*
Vamos ao sim. Por simplicidade, perpetremos a simplificação já habitual de identificar Psicanálise e Freud; para os fins dessa aproximação, nada de grave resultará. Há dois tipos irrecusáveis de teoria na Psicanálise, se bem que envolvendo toda sorte de combinações intermediárias, em que comparecem em proporção diversa.
*
O primeiro, tipo A, respeita o modelo aproximado da inferência observacional-indutiva. É o caso, por exemplo, da psicopatologia psicanalítica e de sua variante, a psicopatologia da vida quotidiana. Os fenômenos em questão podem ser, em tese, observados por qualquer um; estão aí, por assim dizer, e sua generalização indutiva não oferece problemas epistemológicos de monta.
*
Pelo ângulo da fase fálica, por exemplo, a observação sobre a menina alimentar fantasias urinarias onipotentes é algo que, para ser reconhecido, nem sequer exige o psicanalista de plantão que há em todos nós. Certa vez, no Salar do Atacama, Laura, uma menininha de uns 10 anos, ao ouvir da guia a recomendação de que, em urgência vesical, evitássemos as efervescências salinas por tomarem uma cor amarelada denunciadora, perguntou bem séria e espantada: “se a gente fizer xixi aqui fica tudo amarelo?” Isto é, os mil quilômetros quadrados do Salar.
*
*
*
Exigem-se coerência, rigor na educação, um apurado sentido arquitetônico na construção do sistema e, sobretudo, propriedade e harmonia em torno das idéias de Freud: cada teoria psicanalítica age como um discurso próprio e articulado
*
*
*
Tédio epistemológico
*
O segundo caso favorável, tipo B, é o das teorias hipotético-dedutivas, reunidas por Freud sob o nome de metapsicologia. Aparelho psíquico, instintos etc. compõem um modelo conjectural da alma humana, tão irrefutável, em principio, quanto a teoria da alma de Platão. Trata-se de um sólido modelo conceitual que tem sido submetido ao escrutínio implacável de filósofos e epistemólogos, sem que eles pudessem demonstrar alguma inconsistência grave.
*
Com efeito, o homem pode ser assim como diz a Psicanálise, nada obsta, imprimatur. Naturalmente, não ocorreria o filosofo algum perguntar se existem de verdade o pré-consciente ou o instinto de morte, não mais, pelo menos, que lhe ocorreria exigir provas da teoria platônica de reencarnação. Essas coisas são que simplesmente não se perguntam a um sistema conjectural do gênero, por senso elementar de boa educação epistemológica. Exige-se coerência, sim, rigor na dedução, um apurado sentido arquitetônico na construção do sistema e, sobretudo, uma espécie de impressão geral da propriedade e harmonia que nos faculta dizer: para Freud, o homem é assim.
*
*
*
HÁ TEORIA PSICANALÍTICA?
*
*
*
Um desconsolado “não”…
*
*
*
O não desconsolado só começa a dar caras quando se pretende argumentar a favor de B – ou, a propósito, contra B -, usando os critérios de A. Simplesmente não funciona. Não há conjunto algum de observações psicológicas ou psicopatológicas que possa acrescentar ou furtar um til à metapsicologia, enquanto sistema conjectural; qualquer fenômeno discrepante pode ser reintegrado dentro do sistema e domesticado de pronto. Como seria a demonstração empírica de Eros ou da estrutura do sistema inconsciente? Como seria a demonstração empírica da metempsicose platônica?
*
Bem, não é inimaginável, mas é fantástica.
*
Salvo alguns possíveis descalabros, não há caminho que permita o transito demonstrativo direto entre observação particular e conjectura universal na Psicanálise, ou ao menos nunca soube de um. Contudo, para minorar o nosso desconsolo, há uma possibilidade diferente, apresso-me a esclarecer. Escuta-se sempre que tanto as observações psicanalíticas quanto, e acima de tudo, as conjecturas são derivadas da clinica. O que não se esclarece – de novo, em meu conhecimento bastante limitado, sobretudo da bibliografia recente – é de que forma se derivam. Esse é o posto para o qual gostaria de convocar a atenção do leitor a partir de agora.
*
Nossa clínica padrão, a que se pratica no consultório, no divã, oferece amplas oportunidades para a observação psicológica e psicopatológica, como é notório. Para a generalização indutiva, no entanto, ela talvez nem seja a condição ideal, posto que os exemplos que propicia procedem de um ambiente artificial. Mas este não é o cerne do problema.
*
A verdadeira questão, no que diz respeito ao procedimento observacional-indutivo, é sua inespecificidade. Não só uma clínica extensa, a que se faz nas instituições, a interpretação psicanalítica da cultura etc. pode proporcionar a observação de tais fenômenos, mas até a clinica psiquiátrica, ou, numa palavra, esse gênero de observação pode realizar-se sem clínica alguma.
*
*
*
Fora da moldura
*
Na prática psicanalítica corrente, a diferença mais nítida que se nota com relação à observação fora da moldura (ou setting, se nos apegamos às expressões tradicionais) conta precisamente contra nós: nosso processo de observação está fortemente influenciado por conjectura mais gerais. Elas selecionam os fatos que privilegiaremos e os aprisionam em sua órbita: num consultório, quem ousaria observar a história da pequena Laura, sem a ligar de imediato ao complexo de Édipo, à castração e inveja do pênis? Logo, as teorias produzidas pelo puro procedimento observacional-indutivo revelam-se, para nosso espanto, teorias bem sustentáveis, porém não necessariamente psicanalíticas.
*
No outro extremo, as teorias hipotético-dedutivas, sendo organizadoras da clínica padrão, não podem ser delas deduzidas, sem que se caia sob a pesada acusação de estar cometendo a mais vulgar das tautologias. Ficam, pois, à margem da clínica ambas as modalidades habituais de teoria: ao que parece, a primeira, pela inespecificidade; a segunda, por petição de principio. Em suma, não há derivação direta da clinica à teoria.
*
*
*
Interpretações
*
Teremos conseguido a proeza de encurralar-nos no canto da sala, como o distraído aplicador de sinteco? Não é bem assim. O fato é que raramente um analista realiza observações puras ou puras conjecturas. Nas origens da Psicanálise, Freud fez algumas, mas, na maioria de seus escritos como na quase totalidade dos nossos, os descendentes, intervém um instrumento diferente que, ao mesmo, aniquila a pretensão à veracidade empírica e à construção de conjecturas. Esse instrumento é, evidentemente, a interpretação. A interpretação psicanalítica também não é um instrumento convencional.
*
Na verdade, é um instrumento muito peculiar. Quando o analista atribui um sentido, na clinica padrão ou na clinica extensa, ele está apostando, lançando dados. Se é verdade que a negativa do paciente ou a explícita recusa de um objeto cultural qualquer não invalida a atribuição, é verdade também que sua admissão não apenas falha em convencê-lo como o Poe do sobreaviso: se não desperto resistência, devo ter me enganado.
*
Em suma, o enunciado de uma interpretação não é um processo demonstrativo, a não ser na mais cega das práticas escolásticas – mas estas não precisam demonstrar o que já pensam saber –, e sim um expediente provocativo. A atribuição de sentido deve ser calculada meticulosamente, não para enunciar uma verdade objetiva, mas para despertar reações. Essas reações é que constituem sua verdade. Portanto, a fala interpretativa exige a mais rigorosa das seleções, justamente para que seus equívocos possam vir à tona.
*
*
*
Reificação
*
Como se chega à teoria? De novo, por um caminho pouco convencional, por isso quase incompreensível para a epistemologia padrão – permitam-me conceder ao despeito esta pequena vingança. Nosso objetivo é descrevê-lo, porém é forçoso introduzir uma última correção.
*
Se a atribuição de sentido enunciada de nosso discurso não visa restabelecer diretamente a verdade, mas criar condições para que esta surja, é justo reservar a expressão interpretação psicanalítica para o conjunto de provocações e efeito psíquico: por interpretação, não mais entenderemos, na clínica, o enunciado pela fala do analista, mas a produção de uma ruptura de campo. Sucessivas rupturas de campo permitem que se produzam generalizações muito parecidas ao procedimento observacional-indutivo, porém não idênticas, assim como conjecturas de vocação dedutiva, sem que de fato o sejam. Mais comumente, desembocam numa singular combinação de conjectura e indução. E com isto podemos encerrar essas considerações epistemológicas convencionais, que reconheço de bom grado serem um tanto rebarbativas, contudo necessárias, pois desembocam no cauteloso depende…
*
*
*
Fragilidade
*
Por que necessárias? Porque nós, analistas, esquecemos constantemente a essência mesma de nosso método interpretativo, e caímos na reificação, afirmando teorias como se estas descrevessem fatos psíquicos observados ou deduções universais.
*
Tentando responder ao desafio epistemológico convencional, caímos na reificação e na armadilha da questão fora de propósito: experimentem pedir a um matemático provas empíricas de seu teorema, a um pintor, alguma justificativa doutrinaria de seu quadro, ou um filosofo, o protocolo das observações em que se baseou. Se ele não os atrair pela janela e, depois de fartas demonstrações de desprezo pela estreiteza de espírito, dignar-se a responder, dirá que sua questão não é apenas despropositada, porém desonesta, pois exige dele a apresentação do passaporte de um país que não é o seu.
*
Acontece que matemáticos, pintores e filósofos, oficiantes de velhos ritos, já tem delimitado o território a que pertencem, enquanto nós, recém-chegados, não o temos. Só temos a clínica padrão, em crise, e o ambicioso horizonte de vocação legado por Freud, o de criar uma ciência capaz de revolucionar as ciências.
*
*
*
HÁ TEORIA PSICANALÍTICA?
*
*
*
O cauteloso “depende”
*
*
*
E por que o depende? Bem, a resposta é quase evidente. Se nossas teorias procedem de rupturas de campo, seu critério de verdade não pode ser outro senão a capacidade de vir a produzir: rupturas no sistema representacional do paciente, nos sentidos fixados de certo recorte da psique social, nas próprias teorias antes utilizadas, no sentido geral de ciência etc. Ou, para dizê-lo com simplicidade, nossas ilações apenas se alçam em teorias legitimas, na medida em que podem operar como eixos do processo interpretativo, vale dizer, como interpretantes. É esta a forma pela qual se derivam da clínica. Enfim chegamos a um porto.
*
Outra resposta, menos precisa, porém talvez mais útil, consiste em tomar em consideração o lugar e a forma de seu processamento. Ao teorizar sua clinica, o analista retira-se a um lugar reservado, não tão diferente da clínica e jamais indiferente à clínica, mas um lugar análogo. Tão estranho é nosso saber que sua construção é exatamente aquela de que nos acusam os críticos positivistas, sem saber exatamente do que estão falando: a ficção. Como podem ver, estou tomando ao pé da letra a sentença de Freud, que identifica sua metapsicologia com a bruxaria e o aparelho psíquico com uma ficção teórica.
*
*
*
Representações
*
*
*
A ficção teórica, nosso reino análogo, inventa representações do mundo que, empiricamente, seriam tão falsas como as peripécias de um romance, admitamos, mas que como estas, possuem o dom de pôr à mostra a verdade oculta do mundo. Quando lidas, num caso ou noutro, enquanto interpretantes. O depende, com que qualificamos a existência da teoria psicanalítica, reside, com efeito, em seu caráter ficcional, em ser construída num análogo (à realidade da clínica) e só ganhar valor de teoria como interpretantes de uma interpretação. Discutir a coerência da metapsicologia freudiana, ou rearranjá-la dedutivamente noutros desenhos, lança-nos na armadilha platônica da coerência pura. Colecionar fatos clínicos, na armadilha positivista, já que a clinica não é feita de fatos, mas de possíveis: do efeito de representações, oferecidas como possibilidades, sobre a possibilidade representacional do sujeito.
*
Escrita
*
*
*
Freud inventou a Psicanálise escrevendo. Inventou o psicanalista como personagem e inventou uma prática ficcional: seus pacientes são historias muito bem contadas, com cara de gente, não de análise. Inventou o movimento psicanalítico, como quem cria um enredo, este, de discutível qualidade. E inventou Freud. Lacan reinventou Freud, como outro personagem. Desde que se respeitem os limites do análogo, seu caráter ficcional, que só se torna teórico na operação interpretativa, temos teoria. Quando se acredita no enredo de um romance, perdem-se o romance e seu valor teórico. Tudo depende, por conseguinte. Nisso dá sermos uma ciência tão pouco convencional quanto o é a literatura.
*
Consiste a literatura, de modo geral, em um movimento de báscula entre consolidação e ruptura. O produto não se perde, mantêm-se dentre dela, após alguns trânsitos cortantes, como gêneros literários, ou numa especialização que parece amputar também a ligação com a literatura-mãe, como escrita religiosa, como história etc.
*
Se se distanciam, virando ciência, esses novos gêneros guardam, porém, memória da relação de origem, naquilo que apelidamos de circuito pelo análogo. A Psicanálise é um dos ramos mais recentes desse tronco, ainda mal diferenciado, evidentemente.
*
Talvez seja esta a razão de, entre nós, o antigo desacordo entre cabeça e corpo ser tão drástico, com partidários ferrenhos do extremos – que se intitulam clínicos versus teóricos, na linguagem da cabeça. Com efeito, no processo de constituição de qualquer gênero literário ou ciência, a representação pode pecar por falta ou por excesso, fica indefinida e dilui-se, num extremo, congela-se em doutrina, no outro.
*
Não estou propriamente afirmando que as teorias psicanalíticas são o mesmo que contos ou romances, mas que este é o contrapeso justo para equilibrar o peso da reificação. Estou procurando estabelecer o parentesco profundo entre o sentido da teoria psicanalítica e a literatura de ficção, não sua completa identidade. Não estou negando o valor cientifico a nosso conhecimento, apenas assinalando que a psicanálise só chegará a ser uma ciência se assumir plenamente tal parentesco e conseguir, por essa via, criar uma teoria das ciências onde venha a caber, sendo o que é, e não uma reprodução infiel das bard sciences. Uma ruptura de campo epistemológico, pode-se dizer.
*
Porém, não se espere um final feliz para esta história, do tipo: nossas teorias estão salvas, todos já estivemos sempre praticando alta teoria avant la lettre, nossa clinica já é a clinica extensa, nada precisa mudar, senão detalhes microscópicos de setting e a terminologia teórica. Creio que estaria ofendendo vossa inteligência, caso lhes propusesse semelhante banalidade. O circuito pelo análogo ficcional é, ao contrário, uma proposta de rigor e cheia de graves repercussões práticas, como devem haver notado. A coisa mais prática que existe é a teoria, e a alta teoria deve ser altamente prática, para que justifique o nome. É a própria ruptura de campo, em estado positivo – portanto, menos geral e menos axial que nosso método, pois já é o método aplicado à teoria.
*
*
*
Freud inventou uma prática ficcional: seus pacientes são historias muito bem contadas, com cara de gente, não se analise. Inventou o movimento psicanalítico com quem cria um enredo, este, de discutível qualidade. E inventou Freud

Comentários