Artigos periódicos: “A delicada face de Esparta”

A delicada face de Esparta
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“O rio Eurotas, no coração da cidade, era o centro de muitas divindades exclusivamente femininas. Apresentações de musica e dança, competições atléticas e festivais dionisíacos costumavam entreter as garotas às suas margens”
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Texto: BettanyHughe e Paul Cartledge
Tradução: Leandro Woyakoski
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Os livros da História acostumaram-se a nos ensinar que os espartanos eram sisudos, tiranos, ultrarradicais. Um olhar mais apurado, no entanto, revela uma cultura rica e cheia de vida, com direito a manifestações artísticas e mulheres independentes
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A PALAVRA “ESPARTANO” — “austero, rígido, rigoroso” — se entranhou tanto em nosso imaginário que, quando se pensa em Esparta, deve-se vislumbrar um local cinzento e melancólico. O lúgubre lar de uma antiga civilização viril e severa. O taciturno centro da região da Lacônia, na Grécia continental, onde morava um povo tão pouco amigável, que inspirou o uso de termo “lacônico” como sinônimo para tudo aquilo que se expressa em pouquíssimas palavras.Mas o cinza, definitivamente, não é a verdadeira cor de Esparta. A viçosa superfície da planície de Eurotas, onde a cidade está localizada, apresenta um cenário bem mais alegre e colorido do que supomos. Quem sobe as colinas da região imediatamente é envolvido pelo perfume de amêndoas em flor. A paisagem agrada aos olhos, com delicadas áreas gramadas salpicadas de anêmonas e jacintos silvestres. Logo abaixo de uma suave nevoa a moderna Esparta desponta, aninhada em um vale verde, com campos recobertos de arvores frutíferas. Definitivamente, esse cenário não parece ter sido a casa de um povo triste e tirânico.
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Tão ruim quanto parece?
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Esparta é um enigma e há poucos registros antigos para ajudar a desvendá-lo. Seus habitantes raramente escreviam sobre si mesmos. A maior parte dos textos a que temos acesso são assinados por seus arqui-inimigos, portanto, existem bons motivos para não confiar em tudo o que eles dizem. Invariavelmente, a poderosa cidade-estado grega é retratada como uma sociedade inflexível e cruel, povoada por comunistas em potencial, assassinos de crianças, pederastas, esquadrões suicidas, homens violentos e mulheres com apetite sexual voraz. Os autores clássicos que escreveram sobre Esparta, como os atenienses Xenofonte, Tucídides e Heródoto, parecem estar tentando vender um roteiro sensacionalista para Hollywood.
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Nessas condições, a arqueologia seria uma valiosa aliada na busca pela compreensão da verdadeira face de Esparta. A triste verdade, no entanto, é que existem relativamente poucos achados arqueológicos a respeito da cidade. Os espartanos não eram obcecados por bens materiais, como seus rivais de Atenas. Seu ethos era contrário do que ao acumulo e à ostentação de riquezas. Tanto que, no fim do período antigo e inicio do clássico [c. séc. 5 a.C.], a cunhagem de moedas foi proibida na região. Em resumo, trata-se de uma cultura que deixou poucos artefatos e quase tudo o que restou acabou destruído quando a moderna cidade de Esparta foi erguida sobre a localização da antiga, em 1834.
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Tradicionalmente, cemitérios são uma das fontes de informação mais frutíferas sobre culturas antigas, mas, para o desapontamento dos arqueólogos, os espartanos também eram avessos a funerais ostentosos. Um habitante da cidade só merecia ter o nome gravado em sua lapide se fosse um homem morto em combate ou uma mulher que perdera a vida ao dar à luz. Era um regime que desprezava o culto de indivíduos. Mesmo a elite guerreira de Esparta — chamados de homoioi ou “pares” — vivia em um estado imposto de igualdade. Eles cultivavam terrenos divididos proporcionalmente pelo Estado, dormiam e comiam juntos, eram proibidos de exercer qualquer tipo de comercio interno. Eram encorajados a colocar o bem comum acima de quaisquer necessidades ou ambições pessoais, sempre por meio da disciplina e do autossacrifício.
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Escravidão a verdade
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Não é comum, mas, às vezes, objetos reveladores chegam à superfície. Recentemente, uma kothon espartana (espécie de taça gigante), foi encontrada e submetida a testes. Acredita-se que ela tenha sido usada na divisão de grandes quantidades de vinho — desmentido antigos relatos que apontavam que os espartanos eram abstêmios ao extremo. Kraters (recipientes similares a ânforas) contendo cinzas humanas e tumbas de dois andares indicam um comportamento bastante típico nos eternos e honras aos ancestrais. Um dos achados mais famosos, uma mamadeira ricamente decorada, sugere que, assim como tantos outros povos, eles também gostavam de oferecer o melhor para seus bebês.
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O melhor, à maneira espartana, claro: um dos mais polêmicos costumes do vale do Eurotas era o fato de um conselho de anciãos decidir se os recém-nascidos deveriam ou não viver. Se apresentasse a menor imperfeição – que, mais tarde, pudesse enfraquecer a perfeita constituição do estado espartano -, a criança era jogada em uma das gargantas do Monte Taigeto, um local conhecido como apothetai ou “depósito”. Nesse contexto, homenagear as mulheres que morriam ao dar à luz filhos perfeitos — que seriam os preciosos guerreiros do futuro, cuja devoção e disciplina manteriam a salvo a utopia espartana — passa então a fazer sentido.
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As paredes do Monte Taigeno eram um verdadeiro símbolo daquela sociedade. Além de fornecer um local bastante conveniente para o descarte dos espartanos indesejados, ajudavam a proteger a cidade do contato freqüente com outros povos, reforçando uma confiança quase ilimitada de que seu estilo de vida era o correto e que seu precioso mundo deveria se manter livre de influencias externas.
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Mirem-se no exemplo
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Apesar de bastante exagerada, a idéia de que a cidade-estado mais controversa da Grécia Antiga vivia sob um regime totalitário cuja maior preocupação era a guerra, não deixa de conter verdades históricas. Esparta era uma verdadeira escola de guerreiros. A intenção dos historiadores contemporâneos, no entanto, é ir além desse óbvio olhar e revelar outras características desse povo tão multifacetado e complexo.
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Analisar a estrutura física da cidade, por exemplo, ajuda a entender o verdadeiro papel da mulher em Esparta. Os homens, entre 7 e 60 anos, viviam quase exclusivamente com outros homens, em treinamento militar, o que propiciava à população feminina um estilo de vida bastante independente para a época. Elas não tinham direito a nenhum tipo de luxo — segundo descrições antigas, o centro do povoado parecia um amontoado de aldeias -, mas estavam a maior parte do tempo rodeadas apenas por outras mulheres e crianças, o que garantia um dia a dia organização e seguro, alem de uma independência bastante incomum para a época.
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A planície do Eurotas era fértil e a produção de alimentos tão abundante que não apenas sustentava seus habitantes, como impulsionava um intenso comercio internacional. A azeitona e a laranja eram alguns dos itens mais procurados pelo mercado externo – e as espartanas contavam com o auxilio de escravos permanentes (os hilotas) para cultivá-los. Elas tinham autonomia suficiente para tomar todas as decisões importantes com relação ao trabalho ou às tarefas domesticas e, desse modo, dispunham de uma qualidade de vida simplesmente impossível de se imaginar em outras cidades-estados gregas, como Atenas, por exemplo.
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Enquanto os atenienses não tinham nem o privilegio de ficar ao ar livre — em geral, vivam trancadas dentro de casa, supervisionando os criados, cuidando dos filhos e obedecendo aos maridos —, as mulheres de Esparta tinham um cotidiano ativo, podiam herdar terras e, ainda, se divertir durante o tempo livre.O rio Eurotas, no coração da cidade, era o centro de muitas atividades exclusivamente femininas. Apresentações de musica e dança, competições atléticas e festivais dionisíacos costumavam entreter as garotas às suas margens. Ao longo de seu leito foram encontrados indícios de santuários, anfiteatros e campos dedicados à pratica de exercícios físicos. Ateneu, o famoso escritor grego de Banquete dos Sofistas [c. séc. 3], descreveu o menu principal de suas festividades: “queijo de cabra, linguinça, figos, favas, leitões e pão” — um cardápio nada espartano. Os maridos de Esparta acreditavam que, quanto melhor fosse a vida de suas esposas, mais saudáveis seriam seus filhos.
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Musos e músicos
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No Museu de Belas-Artes de Virginia, nos Estados Unidos, existe um magnífico cálice de argila (que os gregos chamavam de kylix), encontrado na região da Lacônia e datado cerca de 540 a.C. Notando, a região central da taça, um musico ricamente paramentado toca um aulos duplo, instrumento de sopro feito de junco. O artista está cercado por dois dançarinos nus, um guerreiro barbudo e um jovem imberbe e de cabelos longos.
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É uma surpresa descobrir que os espartanos também gostavam de musica e, mais do que isso, que eles idolatravam musas (as nove deusas das artes e ciências na mitologia grega). A musa mais popular entre os temidos guerreiros do Peloponeso era Terpicore, deusa da musica e da dança.
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Um poeta anônimo da Antiguidade chegou a comparar um espartano típico a uma cigarra, “pois ele sempre queria entrar em um coro!” A palavra grega khoros significava originalmente “dança” e, por extensão, o grupo de pessoas, homens ou mulheres, meninos ou meninas, que cantavam e dançavam juntos, em harmonia. A qualquer momento, espartanos podiam ser flagrados cantando ou dançando. Além disso, a eles é atribuída a invenção de diversas danças locais peculiares, sendo que algumas eram claramente obscenas.
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Quando, em cerca de 575 a.C., um aristocrata ateniense se viu encurralado durante uma competição pela mão da filha de um dos políticos mais poderosos da Lacônia, conta-se que ele resolveu apelar para a cultura local, executando danças espartanas sobre a mesa — as versões mais picantes garantem que ele sacudia as pernas para cima, deixando à vista até mesmo as partes mais intimas de seu corpo.
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Provavelmente de modo mais sóbrio, todos os anos os espartanos homenageavam o deus Apolo em um festival de dança conhecido como Gimnopédia. Era típico do espírito competitivo grego que os corais de idosos, guerreiros e crianças dançassem e cantassem em festividades desse tipo, sempre disputando pela melhor performance.
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É sabido também que, na sociedade militarista de Esparta, a musica tinha um lugar de honra na arte da guerra. Em vez de correr impetuosamente para uma batalha, os espartanos caminhavam para frente vagarosamente ao som de vários flautistas e cornetistas. Segundo o historiador ateniense Tulcidides, essa era uma tradição estabelecida do exercito, nada tendo a ver com a religião. O propósito era fazer a tropa avançar de modo uniforme e no tempo correto.
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Achados no santuário de Artemis Orthia, em Esparta, incluem fragmentos de aulos feitos com ossos de animais e modestas estatuetas de chumbo com dedicatórias representando flautistas e tocadores de kithara, uma espécie de lira. O que podemos concluir é que a música ocupava um lugar especial na sociedade espartana. E essa é uma correção útil a um retrato tradicional, mas falso, da antiga Esparta como uma cidade que era a-mousos, literalmente “sem musas” ou “inculta”.
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Hitler e Hollywood
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Ainda há muito para ser desvendado sobre o enigma de Esparta. Na corrida entre alemães, britânicos e norte-americanos pela descoberta de sítios arqueológicos gregos, os britânicos asseguravam o domínio da planície de Eurotas e cavaram sistematicamente por lá de 1906 a 1910 e, posteriormente, de 1924 a 28. Depois disso, durante quase 50 anos, os britânicos pararam de escavar. Talvez por extremistas totalitários terem usado a cidade como um exemplo a ser seguido — Hitler era assumidamente um fã dos espartanos, assim como grupos neonazistas da Europa e dos Estados Unidos.
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O estudo de Esparta ficou esquecida durante décadas, voltando à moda apenas com o lançamento do filme 300, do diretor Zack Snyder, em 2007. Na superprodução de Hollywood, o rei Leônidas e seus 300 guerreiros lutam até a morte contra o exercito persa. O película abriu caminho para importantes reavaliações históricas sobre a Grécia Antiga. Muitas distorções escaparam por um fio de serem legitimadas pela História e, pouco a pouco, uma nova imagem de Esparta vem sendo construída no imaginário popular ocidental.
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Para Tucídies, não é surpreendente que esse processo tenha ocorrido: “suponha que a cidade de Esparta esteja aberta, não restando nada alem de templos e as fundações dos prédios; as épocas futuras não vão querer acreditar que o poder dos espartanos estava à altura de sua fama”, já afirmava o historiador ateniense, no séc. 5 a.C.
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Bettany Hughes é historiador e, em 2004, apresentou a série The Spartans (Os Espartanos), produzida pelo Channel Four.
Paul Cartledge é historiador, professor de História Grega na Universidade de Cambrigde e autor do livro Sparta: An Epic History (Esparta: Uma história Épica, não publicado no Brasil).

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