Artigos periódicos: “As marteladas do ato falho”

As marteladas do ato falho
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A análise de situações em que a pessoa pretende uma coisa e faz outra mostra como funcionam boa parte dos mecanismos da linguagem do nosso inconsciente
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Por Cristina Felipeto e Eduardo Calil
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A jovem L., de 28 anos, estava em viagem de férias, com duas amigas, acompanhadas pelos anfitriões. Foi em um dos passeios que, conversando sobre quanto custava fazer as unhas na localidade e na sua cidade de origem, L. disse:
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“Ah, lá com apenas dez reais se faz pai e mãe…”
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Todos riram do tropeço lingüístico e logo alguém mais afoito emendou:
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“Se faz ‘pé e mão’, né!
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Sem tirar maiores conseqüências desse estranho enunciado, L. dirigiu sua fala para outros rumos, apenas retornando sobre seu estranho enunciado pouco tempo depois, para acrescentar breves comentários.
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Esse fugaz e incidental ato de enunciação pode nos ajudar a entender que o falar nunca possui uma só dimensão e tem, na singularidade que lhe é própria, um componente essencial para se entender de que modo se entrelaçam lingüística e psicanálise. Vejamos como se dá esse entrelaçamento.
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De um lado, a correção feita imediatamente após sua produção restaura sua função comunicativa, colocando-o na cadeia de sentidos homogêneos, estabilizados e previsíveis, garantido sua inteligibilidade e compreensão que nada diz para além da informação que L., conscientemente, queria transmitir: não custa caro fazer as unhas (pé e mão) na cidade em que mora. Um enunciado de um sujeito “dono de si”, uma fala intencional constituída por aquilo que o falante realmente tencionava dizer.
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Ato falho
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Apesar da correção e retificação da informação, algo escapou da boca de L. como se fosse uma pedra que aparecesse inesperadamente em seu caminho de sujeito falante. Alguma falha no dizer que parecia indiciar, no momento exato de sua enunciação, algo da ordem do “desejo”, da subjetividade de seu enunciador que “queria dizer uma coisa”, mas acaba dizendo “outra”. Uma divisão cuja enunciação pode ser facilmente nomeada como “ato falho”, uma fala tropeçada, truncada que, a despeito das intenções do sujeito, vêm de um Outro lugar, do lugar de um sujeito constitutivamente clivado e heterogêneo.
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A psicanálise se interessa precisamente pelo tropeço naquilo que ele pode revelar do sujeito, do desejo do sujeito, do sujeito do inconsciente. Então, se a fala pode trazer à tona esse sujeito que se esconde em algum lugar, nada mais justo do que buscar no funcionamento da língua a expressão de sua manifestação.
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Se, com efeito, pode-se observar que Freud já fazia da cena analítica uma experiência dialógica — uma experiência fundada na fala e que tem a interpretação como instrumento de cura — enquanto criava e desenvolvia as bases teóricas e praticas da psicanálise, é do encontro de Lacan com a lingüística, mais especificamente com a obra de Ferdinand de Saussure (considerado o fundador da lingüística moderna) que se sela, definitivamente, a ligação entre a psicanálise e a linguagem. Segundo Arrivé (1999), foi por meio de Merleau-Ponty que Lacan conheceu a obra de Saussure nos anos 50. Entretanto, “só em 1954, exatamente no dia 24 de junho (Seminário 1, p.281) […] que Lacan pronuncia em publico o nome de Saussure” (p.73-74).
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Façamos um percurso pelo pensamento de Saussure e sobre o que pode ter interessado da lingüística, inicialmente, à psicanálise.
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Uma das decorrências das reflexões do eminente lingüística Ferdinand de Saussure, acerca da noção de língua, é que ela é um sistema de relações. A maioria de nós, falantes, não imagina que, sempre que falamos, todo um sistema entra em funcionamento. Já dissemos que a língua é um sistema, mas um sistema particular, cujas unidades são constituídas a partir de relações e não o inverso. Relações que, ao serem estabelecidas, produzem unidades lingüísticas, produzem unidades lingüísticas. Logo, a questão é saber o que mobiliza essas relações e como elas podem produzir sentido.
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Saussure chamou as unidades lingüística de signos, os quais são formados pela associação do significado com o significante, não sendo apreensíveis fora desse sistema, o que significa dizer que eles — os signos — só tem existência por meio de relações recíprocas que mantêm entre si, donde provém a possibilidade de significação. Com efeito, é o que podemos observar por meio de afirmações do tipo: “…a língua tem o caráter de um sistema baseado completamente na oposição de suas unidades concretas” (p. 124). E: “…a língua [é] um sistema em que todos os termos são solidários e o valor de um resulta não-somente da presença simultânea de outros… (p. 133) Assim, o valor de qualquer termo que seja está determinado por aquilo que o rodeia” (p. 135).
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No entanto, embora caminhem juntos, significante e significado não estão “colados”, já que o valor vai depender tanto do que está em torno quanto do efeito retroativo ou do “ponto de estopo”, como disse Lacan. Vejamos um breve exemplo para observar como o valor de um termo somente se estabelecer ao término de uma proferição: “há cinco velas… no mar… do meu solitário… coração”.
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Não é difícil observar que o sentido de “vela” fica em suspenso até que se pontue o que se está dizendo. Isto é, ao fechar o enunciado com “coração”, a palavra “vela” que poderia ser “vela de aniversário”, “vela de carro”, “vela de barco”, passa a valer “morte” ou “perda” de entes queridos.
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Essa relação sintagmática passa a ser nomeada por Lacan de operação metonímica, em virtude de seu caráter de contigüidade, marcado tanto pela linearidade quanto pelo “efeito retroativo”, impedindo que tomemos a palavra “vela” como tendo um único significado ou um sentido previamente estabelecido antes de sua proferição.
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A psicanálise se interessa pelo tropeço naquilo que ele pode revelar do sujeito, do desejo do sujeito, do sujeito do inconsciente. Se a fala pode trazer à tona essa sujeito, então nada mais justo do que buscar na língua a expressão de sua manifestação
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Cadeia da fala
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Mas, além dessa propriedade linear da cadeia da fala, nesse processo de encadeamento em que um termo após o outro implica tanto uma restrição quanto uma ampliação, há, simultaneamente, um processo de seleção, de substituição operada pelo falante (na maior parte das vezes de forma “automática”, sem que haja reflexão e, em alguns casos, sem intenção). Essa operação está presente no exemplo “Há cinco velas no mar do meu solitário coração”.
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A noção de valor, que implica a de relação, é proposta por Saussure para explicar de que forma-se organizam as unidades lingüísticas no sistema. A resultante disso é que o sentido ou qualquer unidade de significação é obtido sempre “só depois”, isto é, o valor se fixa a posteriori, a partir dos operadores metonímico e metafórico que mobilizam significantes, dando a eles valores muitas vezes insuspeitados para o próprio sujeito. Isso exige que a noção de signo lingüístico, tal como proposta por Saussure, seja re-interpretada, e é o que faz Lacan.
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O ato falho, os sonhos e os sintomas histéricos são aqueles lugares sobre os quais se debruçou Freud e mostram, claramente, sua aposta na existência de mecanismos relacionados à linguagem e à fala profundamente assentados no psiquismo do individuo.
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Força técnica
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Para Lacan, a possibilidade de restituir a força técnica da psicanálise — a qual, para ele, estava fora de prumo (Dosse, 1994) — foi um empreendimento que só poderia ser levado a cabo mediante a releitura da obra freudiana. É em Função e Campo da Fala e da Linguagem (mais conhecido como “Discurso de Roma”) que Lacan anuncia o seu programa de “retorno a Freud”, marcando a importância do trabalho com a linguagem. Lacan anuncia aí a necessidade de aproximação às filosofias de Kojève e de Heidegger, à antropologia de Lévi-Strauss e à lingüística saussuriana, única via possível para “reconduzir a experiência psicanalítica à fala e à linguagem, como a seus fundamentos” (Lacan, 1966/1998, p. 200).
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No entanto, Lacan produz, em decorrência disso, uma releitura da obra saussuriana, ressignificando-a. Ele inverte o signo saussuriano, colocando o significante acima do significado. Para Saussure, o significado e o significante compõem as duas faces do signo e estão relacionados, sendo a barra a significação. Para Lacan, o significante não forma uma “composição” com o significado e nem está encarregado de representá-lo. O significante é autônomo, ou seja, é da articulação entre significantes, ou, melhor, entre cadeias significantes que deriva o significado.
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Em seu Seminário 3, As Psicoses (1995-56/1988), Lacan falou, pela primeira vez, em metáfora e metonímia. Todavia, é em uma palestra dirigida a estudantes na Sorbonne, realizada em maio de 1957 e intitula A instância da Letra no inconsciente ou a Razão desde Freud, que Freud formalizou e formulou de maneira mais explícita a inversão do signo saussuriano a partir próprio chamou de condensação e deslocamento, e Lacan observou que eles correspondiam aos mecanismos que estruturam qualquer discurso, vale dizer, a metáfora e a metonímia. É interessante apontar que Saussure e Freud — cada um de um modo diferente e com preocupações distintas — identificaram, na linguagem, funcionamentos análogos.
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Leis inconscientes
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A interpretação por meio de processos metafóricos e metonímicos alcança fecundidade na medida em que é capaz de desvelar uma “outra coisa” e uma “outra função” da linguagem, que frequentemente não interessam ao lingüística: o equivoco, a ruptura.
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Agora que chegamos aqui, vale a pena retornarmos o ato falho de L. citatonímicas na formação desse ato falho.
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Chamamos a atenção para as estruturas mais explicitas que compõem o ato falho: “com apenas 10 reais se faz… pai e mãe” e “com apenas 10 reais se faz… pé e mão”.
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Se mobilizarmos os operadores metafórico e metonímico como mecanismos que interferem na produção desse ato falho, veremos que a substituição de “pé e mão” por “pai e mão” não é aleatória, nem casual, nem decorrente de um engano sem conseqüências para o sujeito, mas, diríamos com firmeza, é convocada por relações de semelhança que estas formas significantes mantêm entre si, e principalmente, pela cisão do sujeito que cede lugar ao seu desejo.Tanto a expressão “pai e mãe” quanto “pé e mão” espelham uma estrutura não só sintática, mas fônica. De um lado, a semelhança estrutural marcada pela presença do conectivo marcada pela presença do conectivo “e” com função sintática aditiva: “pai e mãe”; “pé e mão”. Sequências que apresentam, inclusive, quase o mesmo número de letras, deixando o rastro de um anagrama, apesar da pouca mobilidade entre as posições de seus elementos significantes. Além disso, essas expressões e seu valor aditivo guardam certa imobilidade expressa em enunciados do tipo: “fazemos pé e mão” ou “não se faz mais pai e mãe como antigamente”.
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Por outro lado, há forte semelhança fônica marcada pela paronomásia (e uma quase homofonia) e pelo aspecto monossilábico dos elementos que compõem essas expressões. Essa relação de semelhança indicia que esses elementos estão em concorrência nessas posições e a entrada do elemento imprevisível é prova de que o falar está a todo instante ameaçado por aquilo que está presente, mas se mantêm em estado latente. Isto é, rápido como uma faísca, um significante recalcado ou interditado se imiscui no dizer do sujeito e ilumina seu desejo, interrompendo o aparente domínio que teria sobre si mesmo, abalando suas intenções comunicativas, revelando o que não pode ser revelado.
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A interpretação por meio de processos metafóricos e metonímicos é fecunda na medida em que é capaz de desvelar uma “outra coisa” e uma “outra função” da linguagem, que frequentemente não interessam ao lingüista: o equivoco, a ruptura
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Explicação
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A metonímia mostra-se como um aparente sem sentido. Aqui vemos o trabalho da metáfora na reconstituição da significação, pois “ela [a metáfora] jorra entre dois significantes dos quais um substitui o outro tomando-lhes o lugar na cadeia significante, o significante oculto permanecendo presente pela sua conexão [metonímica] com o resto da cadeia” (Lacan, 1996: 237). A substituição de uma cadeia por outra e a permanência (latente) da cadeia substituída sob a cadeia manifesta fazem com que produzamos sentido sobre o sem sentido aparente.
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Se considerarmos só o eixo sintagmático descrito, a manifestação de “pai e mãe” na cadeia enunciada produz um aparente sem sentido. O que um lingüista poderia extrair daqui? Talvez nada. É preciso dizer, entretanto, que uma analise outra pode revelar que ato falho traz aquilo que Saussure já estava tentando dizer sobre o funcionamento da língua.
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Um primeiro ponto a observar é o caráter único dessa enunciação. Ele dificilmente poderia ser dito por outro sujeito. O ato falho de L., como todo e qualquer ato falho, é singular e, em alguma medida, revela o segredo de um desejo muitas vezes inconfesso.
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Mais tarde, L. comenta que, quando disse “com apenas dez reais se faz pai e mãe”, estava pensando em um “papai e mamãe” no sentido sexual, pois, nas palavras dela, “o máximo que suporto ficar sem namorar são dois dias. Que haveria uma conotação sexual sustentando seu ato falho, o que não era muito difícil de imaginar, mas o que dizer com relação ao valor, “dez reais”?
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O pai e o Pai
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Com o passar dos dias, soube-se um pouco mais sobre sua história. Com 19 anos, ela e a mãe tiveram uma violenta briga pelo fato de L., após ter ido ao cinema com o namorado, chegar “novamente”, segundo o que teria dito a mãe, tarde em casa. A briga culminou na sua expulsão de casa e L. saiu apenas com a roupa do corpo e sem dinheiro algum. A partir de então, L. e a mãe nunca mais se falaram, mesmo nos momentos financeiros mais difíceis enfrentados pela filha até recentemente. O pai, com quem ela conversava regularmente, já estava separado da mãe havia algum tempo, mas não manifestou qualquer indignação com relação à atitude da mãe, tampouco fez qualquer interferência em favor da filha.
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Depois de se saber desta breve história, surge uma nova tentativa de interpretação para o ato falho “com apenas dez reais se faz pai e mãe”, já que poderia estar relacionado com o fato de os pais não “valerem nada” para L. pelo fato de que ela nunca pôde “contar”, não só enquanto ajuda financeira, mas no sentido de nunca ter sido “considerada” por eles nesses anos.
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Não acreditamos ser esse um ponto negligenciável. Todavia, a surpresa de sua história não pára por aí. Uma amiga íntima de L. revela que ela tem como amante há vários anos seu ex-patrão, o qual é chamado por todos os funcionários da empresa de “pai”. Então, entre as amigas que sabem do caso, L. refere-se sempre ao amante como “Pai”. Essa amiga diz também que o “Pai/ex-patrão” a mantém financeiramente e que, neste momento de vida, L. acredita que o amante tem de lhe dar tanto quanto a sua esposa tem: bons móveis, roupas, carro etc. Fato que realmente tem acontecido.
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Aqui, a análise da produção do ato falho ganha uma nova coloração. A relação entre “pai”, “patrão”, “amante” é quase explícita e nos permite estender a dimensão subjetiva de sua enunciação, mesmo que não seja possível chegar a conclusões fechadas.
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Nova cor
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Estaria L. acreditando que o ato sexual estava sendo comparado por um baixo preço ao enunciar “com apenas dez reais se faz pai e mãe”, visto ser esta uma quantia irrisória? O amante deveria “pagar” mais por ela? O ato, não o falho, mas o sexual, seria tão pouco importante a ponto de ser comparado com as unhas dos pés e das mãos?
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Para nós, lingüistas, porém tocados pela psicanálise lacaniana, não é possível responder sobre o que poderia estar significando esse ato falho. Talvez somente L., em processo analítico, possa fazê-lo. Mas, após essas revelações, podemos entender melhor o estranhamento provocado por aquilo que enunciou e, assim, dar alguma visibilidade para as forças significantes que pressionam toda e qualquer enunciação.
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Para o estudo das relações entre sujeito, língua e sentido, que desenvolvemos em diversos de nossos trabalhos, uma análise lingüística, no seu sentido estrito, dos processos de enunciação que comportam o equivoco (criação ou erro) e a subjetividade, pode ser bastante restritiva em relação às possibilidades de interpretação destas relações. Sem pretender, entretanto, tomar nosso objeto no lugar da psicanálise, objetivamos aqui indicar limites dessa forma de analise e sua possibilidade de ressignificação, quando de posse de uma noção de língua que suporte o sujeito desejante. Daí, pensar a produção de um ato falho põe em cena um funcionamento que “só depois” pode ser significado como metáfora e que se move através das forças significantes que constituem a subjetividade marcada pela história singular de cada sujeito. A relação com a psicanálise, todavia, torna-se imprescindível.
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Cristina Felipeto é doutora em Linguistica e professora da Faculdade de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde – AL
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Eduardo Calil é pós-doutor em Linguistica, pesquisador associado ao CNPq e professor do Centro de Educação da Ufal

Comentários

  1. Interessante encontrar um texto meu em seu blog. Somente fiquei me perguntando o por quê. ????
    O que lhe chamou a atenção neste trabalho para você nos dar a honra de postá-lo em seu blog e ajudar a divulgá-lo?
    Eduardo Calil

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